sexta-feira, 28 de agosto de 2026

São Moisés, o Anacoreta Etíope (de Scetis) Festa: 28 de agosto

(†)Scetis, Egito, cerca de 407
 
As fontes o apresentam primeiro como escravo ou servo de um oficial, depois como um homem violento, viciado em roubo e líder de um bando de ladrões. Sua conversão não foi um incidente isolado, mas o início de uma longa e difícil jornada ascética no deserto de Scetis. Ali, Moisés tornou-se monge, discípulo de anciãos experientes na vida espiritual e, após anos de luta contra suas paixões, sacerdote e líder de uma comunidade de discípulos. Sua experiência é narrada principalmente por Paládio na Historia Lausiaca e, de diferentes formas, nos Apophthegmata Patrum e em Sozomen. Sua figura está ligada sobretudo à radicalidade de sua conversão, à luta contra a violência e à prática da humildade. A tradição lhe atribui inúmeros ditos nos quais ele repete o convite a não julgar os outros e a reconhecer primeiro os próprios pecados. Ele morreu em Scetis, segundo Paládio, aos setenta e cinco anos de idade. A tradição monástica relaciona sua morte à incursão de saqueadores do deserto, geralmente situada por volta de 407. Etimologia: Do hebraico Moshe, 'salvo das águas' ou 'retirado das águas'. 
Emblema: Palma, túnica monástica, hábito escuro, cruz ou cajado de eremita. 
Martirológio Romano: No Egito, São Moisés, o Etíope, que de notório bandido se tornou um célebre eremita, converteu muitos de seus seguidores malfeitores e os conduziu consigo a um mosteiro. 
Os relatos mais antigos sobre Moisés (variantes: Moisés, o Etíope; Moisés, o Negro; Moisés de Scetis; Abba Moisés; Moisés, o Forte; Moisés, o Ladrão) provêm principalmente da História Lausíaca de Paládio, composta entre o final do século IV e o início do século V. Paládio descreve Moisés como um homem de origem etíope e pele negra, inicialmente a serviço de um importante oficial. Seu mestre teria o demitido devido à sua conduta imoral e atividades criminosas. Moisés então se tornou o líder de um bando de ladrões e adquiriu uma reputação particularmente temível. Paládio especifica que assassinatos também lhe foram atribuídos, mas apresenta esses elementos com o propósito hagiográfico consciente de destacar a natureza radical de sua conversão posterior. Uma das histórias mais famosas contadas por Paládio narra a história de um pastor que, com seus cães, impediu Moisés de cometer um roubo. Determinado a se vingar, o ladrão atravessou a nado o Nilo caudaloso, espada em punho. A história pertence ao gênero narrativo das histórias dos Padres do Deserto e não pode ser considerada uma crônica verificável em todos os detalhes; no entanto, já testemunha a representação tradicional de Moisés como um homem dotado de força física extraordinária e caráter impetuoso. 
Conversão e Entrada em Scetis 
O ponto de virada em sua vida ocorreu após um período de criminalidade. Paládio fala de um arrependimento que amadureceu após sérios reveses, sem descrever uma conversão instantânea. Este detalhe é significativo: a tradição mais antiga apresenta a transformação de Moisés como um processo no qual o passado não desaparece imediatamente, mas é progressivamente confrontado através da disciplina monástica. Moisés ingressou na comunidade monástica de Scetis, um dos principais centros do ascetismo egípcio, na área do atual Wadi al-Natrun. Ali, ele teve que conquistar a confiança dos monges, que conheciam seu passado. Submeteu-se rigorosamente à disciplina da comunidade e, posteriormente, recolheu-se à sua cela, dedicando-se à oração, ao jejum e à penitência. Sua conversão também teve uma dimensão comunitária. Alguns de seus antigos companheiros bandidos, ao encontrá-lo agora transformado em monge, ficaram impressionados com sua transformação e, segundo a tradição, abandonaram a vida criminosa para ingressar na vida monástica. O tema da conversão de todo um grupo de bandidos é central para a memória hagiográfica de Moisés e explica por que o Martirológio Romano o apresenta como aquele que converteu muitos membros de seu antigo círculo. 
A difícil luta contra o passado . 
A vida monástica não apagou imediatamente as inclinações passadas. As fontes enfatizam a longa batalha de Moisés contra a luxúria. Ele recorreu ao sacerdote Isidoro de Scetis, buscando conselhos e aceitando uma disciplina cada vez mais severa. Jejum, vigílias e trabalho foram para ele instrumentos de uma transformação interior que levou anos. A tradição relata que Moisés chegou a passar a noite em pé para evitar o sono e a tentação. Mais tarde, para servir aos anciãos da comunidade, ele caminhava pelo deserto à noite, levando água para suas celas. Foi durante esse serviço, segundo a narrativa tradicional, que ele foi atacado e gravemente ferido, ficando debilitado por um longo tempo. Seu relacionamento com Isidoro demonstra um dos aspectos mais importantes da espiritualidade de Moisés: o ascetismo não é concebido como uma simples acumulação de práticas penitenciais. O discípulo também deve aprender o discernimento, reconhecendo suas próprias limitações. A tradição relata que Isidoro, observando a perseverança de seu discípulo, ajudou-o a compreender que a libertação das paixões não dependia unicamente da severidade de suas práticas ascéticas. 
Humildade e misericórdia: 
Moisés tornou-se gradualmente uma das figuras de autoridade da comunidade Scetis. Os Apophthegmata Patrum, a coleção de ditos dos Padres do Deserto, atribuem-lhe numerosos ensinamentos. Sua forma atual é resultado de uma longa transmissão oral e literária, portanto não é possível considerar cada palavra como um registro taquigráfico de suas conversas. São, contudo, essenciais para a compreensão da memória espiritual que se formou em torno dele. Um dos apotegmas mais famosos narra que Moisés foi convidado a participar de uma assembleia na qual um irmão culpado de um pecado seria julgado. Inicialmente, ele recusou o convite. Quando convidado novamente, chegou carregando um vaso do qual jorrava água. Ao ser questionado sobre o significado desse gesto, respondeu que seus próprios pecados corriam atrás dele, sem que ele pudesse vê-los, enquanto se preparava para julgar os pecados dos outros. Esse episódio expressa de forma particularmente eficaz o cerne de sua espiritualidade: a consciência das próprias fraquezas torna mais difícil assumir o papel de juiz dos outros. Esse tema se repete em muitos outros ditos que lhe são atribuídos. Moisés enfatiza a necessidade de unir a oração à conduta concreta, à vigilância interior, à paciência e, sobretudo, à humildade. Sua autoridade não provém da perfeição teórica, mas da experiência pessoal de violência, devassidão e fragilidade.
Reflexão sobre a vida espiritual. 
Um importante testemunho da figura de Moisés encontra-se nas Conferências de São João Cassiano. Cassiano, que peregrinou no Egito no final do século IV, compilou os ensinamentos dos monges do deserto e apresenta Moisés como uma das grandes autoridades espirituais de Scetis. A primeira de suas conferências com Abba Moisés é dedicada ao propósito da vida cristã: o objetivo final é o reino de Deus, enquanto o objetivo imediato da vida ascética é a pureza de coração. Este fato é importante porque demonstra que Moisés não é lembrado apenas por sua extraordinária conversão. Sua fama consolidou-se sobretudo por sua capacidade de desenvolver uma verdadeira pedagogia espiritual. Sua experiência pessoal tornou-se a chave para a interpretação da vida monástica: o homem não se define pelo seu passado, mas pela direção que dá à sua existência. 
O presbítero e pai espiritual 
Paládio relata que Moisés, no final da vida, foi ordenado sacerdote e morreu em Scetis aos setenta e cinco anos, deixando setenta discípulos. A tradição posterior expande essa estrutura e narra sua ordenação por meio de uma série de episódios edificantes nos quais a humildade de Moisés é testada. Esses relatos devem ser distinguidos dos testemunhos mais antigos. Pesquisas históricas observaram que algumas versões posteriores de sua ordenação refletem conceitos eclesiásticos desenvolvidos após sua época. No entanto, a convergência de fontes antigas sobre o fato de Moisés ter se tornado uma figura de autoridade em Scetis e ter um grupo de discípulos ao seu redor é historicamente significativa. Paládio fala de setenta discípulos, enquanto tradições posteriores insistem no número setenta e cinco. O relato de Paládio é cronologicamente mais antigo e, portanto, deve ter prioridade. 
Morte em Scetis 
A morte de Moisés apresenta uma das principais diferenças entre as tradições relacionadas a ele. Paládio conclui o relato simplesmente afirmando que Moisés morreu em Scetis aos setenta e cinco anos e havia alcançado o sacerdócio. Ele não menciona seu martírio. A tradição copta sinaxária, no entanto, preserva a memória de sua morte durante um ataque bárbaro aos monges de Scetis. Uma tradição posterior conta que Moisés, avisado da aproximação dos invasores, aconselhou seus irmãos a fugirem, enquanto ele permaneceu com alguns monges, recusando-se a responder à violência com violência. Sua morte é geralmente situada por volta de 407, ano em que os ataques dos Mazici devastaram o território de Scetis. A data de 407 é agora preferível às datas muito mais antigas relatadas em algumas entradas hagiográficas. A data anterior de morte em 251, presente na versão mais antiga da entrada italiana, é incompatível com as fontes que situam Moisés no contexto do monasticismo egípcio na segunda metade do século IV e, portanto, deve ser corrigida. 
Fontes Antigas: Paládio 
A principal fonte narrativa é o capítulo dedicado a Moisés na Historia Lausiaca de Paládio da Galácia. Paládio tinha conhecimento direto do ambiente monástico egípcio e compôs sua obra para Lauso, um alto funcionário do império. A história de Moisés é um dos testemunhos mais importantes de sua transformação de bandido em monge. 
Os Apophthegmata dos Padres do Deserto 
Moisés aparece em diversas coleções dos Apophthegmata Patrum. Nelas, ele emerge sobretudo como um mestre da humildade, do discernimento e da misericórdia. O material pertence a uma complexa tradição oral e literária e deve ser abordado criticamente, distinguindo o núcleo histórico da forma narrativa que assumiu durante sua transmissão. Sozomeno, o historiador eclesiástico, também estava familiarizado com a tradição que envolve Moisés. Sua História Eclesiástica, composta no século V, confirma a inclusão do monge na memória eclesiástica do monasticismo egípcio. A erudição moderna considera Paládio, Sozomeno e os Apotegmas em conjunto para reconstruir a figura histórica de Moisés. João Cassiano é uma testemunha particularmente importante porque transmite ensinamentos atribuídos a Abba Moisés e demonstra sua fama já dentro da tradição monástica latina. Nas Conferências, Moisés aparece como um mestre do discernimento e um intérprete do propósito da vida espiritual.
Moisés e o Tema da Não-Violência:
A tradição de sua morte contribuiu para apresentá-lo como testemunha da renúncia à violência. No entanto, é necessário evitar projetar automaticamente a categoria moderna de não-violência em um monge do século IV. O ponto histórico mais confiável é que as tradições que cercam sua morte o lembram de ter se recusado a se defender com armas e de ter aceitado a possibilidade do martírio. Essa história está ligada às palavras do Evangelho de Mateus 26:52: "Quem vive pela espada, pela espada morrerá". Nesse sentido, Moisés se tornou, na memória cristã contemporânea, um símbolo particularmente poderoso da vitória da conversão sobre a violência. 
Culto e Tradição 
O culto a Moisés é particularmente vivo nas Igrejas Orientais, especialmente na tradição copta. O mosteiro de Deir al-Baramus, em Wadi al-Natrun, está intimamente ligado à sua memória e, segundo a tradição, preserva suas relíquias. Um repertório enciclopédico copta o lista como um santo particularmente venerado e associa seus restos mortais à igreja principal do mosteiro. Na tradição etíope, Moisés é lembrado com particular destaque. O termo "etíope" em fontes antigas, contudo, não deve ser automaticamente interpretado como significando um cidadão moderno pertencente ao Estado da Etiópia. Estudos observaram que o termo poderia se referir, de forma mais genérica, a uma pessoa de pele escura, e que sua origem geográfica precisa permanece incerta. Alguns estudiosos levantaram a hipótese de uma origem núbia ou, pelo menos, de ligações com os povos da região do Nilo. Seu culto foi adotado posteriormente no Ocidente. O nome Moisés, o Etíope, foi inserido no Martirológio Romano, e sua festa litúrgica foi fixada em 28 de agosto. Sua presença no calendário romano atesta a inclusão da tradição dos Padres do Deserto egípcios na memória universal da Igreja. 
Iconografia: 
Na iconografia oriental, Moisés é geralmente representado como um monge de pele negra, característica diretamente ligada aos títulos Etíope e Negro. A imagem, portanto, enfatiza um elemento já presente em fontes antigas. Ele é, por vezes, representado com um crucifixo, um cajado de eremita ou os atributos de uma vida ascética. Sua representação geralmente não enfatiza seu passado como bandido, mas sim o momento de sua transformação e a dignidade que alcançou como pai espiritual. 
Relíquias: 
A tradição copta identifica o mosteiro de Deir al-Baramus, um dos mosteiros históricos de Wadi al-Natrun, como o principal local de veneração das relíquias de Moisés. A história de sua preservação e possíveis traduções, no entanto, pertence à tradição monástica posterior e não pode ser reconstruída com a mesma certeza que os relatos de Paládio. 
Autor: Giampietro Cattini 
Ele carrega o nome do legislador de Israel, mas a primeira parte de sua vida foi a de um criminoso violento e astuto. O Martirológio Romano, que o comemora em 28 de agosto, diz que, quando jovem, ele era um "ladrão notável". De origem etíope e pele negra, teve a sorte de entrar cedo para o serviço de um homem muito rico. Mas começou a roubá-lo, sendo expulso, e então passou a roubar praticamente todos, ricos e pobres. Aprendemos sobre sua vida através do relato de um escritor nascido na Ásia Menor: Paládio, mais tarde conhecido como "de Heliópolis" quando se tornou bispo desta cidade na Bitínia, na atual Turquia asiática, no Mar Negro. Paládio é conhecido em particular como amigo e defensor de São João Crisóstomo (c. 350 - 407), o Patriarca de Constantinopla que foi perseguido, exilado e depois reabilitado após a morte; E na literatura cristã, ele gozou de longa fama por um livro que escreveu em grego: a História Lausíaca, assim intitulada por ter sido dedicada a Lauso, um dignitário do imperador do Oriente, Teodósio II. Paládio relata que o bandido Moisés, o Etíope, tinha seu próprio bando que vagava pelo Egito, especialmente pelas áreas rurais indefesas. E, após seus roubos, ele e seus homens se entregavam a festas desenfreadas. Ele devia ser dotado de força física excepcional: Paládio conta que, para se vingar de um fazendeiro que havia frustrado um roubo, ele o perseguiu nadando pelo Nilo, "que estava em cheia e se estendia por quase um quilômetro e meio". Ele nadou "com a espada entre os dentes". Sua carreira de roubo deve ter durado bastante tempo, pois Paládio escreve: "Este grande pecador foi tocado pelo arrependimento tardiamente, após algum grave revés". Em suma, mais do que uma súbita iluminação, deve ter havido uma mudança gradual. Mas, em última análise, duradoura. E sem hesitar. De fato, Moisés consegue converter até mesmo um de seus piores cúmplices, "aquele que compartilhava de sua culpa em seus delitos desde a juventude". E neste ponto vemos começar a "segunda biografia" de Moisés, o Etíope. O ladrão se tornou um verdadeiro monge. Ele vive em sua cela, orando sozinho e com os outros. E um dia o veem chegar à igreja carregando nos ombros, amarrados, quatro ladrões que haviam arrombado sua cela sem reconhecê-lo. E Moisés, com seu antigo vigor, os carregou "como um saco de palha" diante dos outros monges, perguntando: "Agora não posso mais ferir ninguém; então, o que farei com estes?" E os ladrões, por sua vez, se convertem, dizendo: "Se este Moisés, outrora tão grande ladrão, agora sentiu o temor de Deus, por que estamos esperando para fazer o mesmo?" Mas sua conversão não foi pacífica: por vezes, o passado retornava com suas tentações: "Os demônios o impeliram de volta aos seus antigos hábitos de luxúria desenfreada". Ele sentia que não podia resistir sozinho e buscou orientação do velho monge Isidoro, conseguindo gradualmente se libertar, "a ponto de temer o diabo menos do que nós tememos moscas". Finalmente, pouco antes de sua morte, ele também se tornou sacerdote; e deixou setenta discípulos, conclui Paládio. O "notável ladrão", observa o Martirológio Romano, havia se transformado em um "insignis anacoreta". No Martirológio Etíope, Moisés é lembrado em 18 de junho. 
Autor: Domenico Agasso 
Fonte: Família cristã

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