sábado, 29 de agosto de 2026

Martírio de São João Batista -Festa: 29 de agosto- século I

Massimo Stanzione:
 Degolação de São João Baptista.
Museu do Prado, Madrid.
Evangelho e Tradição
 
Esta festa do martírio de São João Baptista teve a sua origem no século V, na França; e no século VI, em Roma. Está ligada — segundo certos historiadores — à dedicação da igreja construída em Sebaste, na Samaria, sobre o que é considerado como sendo o túmulo do santo Precursor de Jesus Cristo. 
No Evangelho de São Mateus encontramos várias alusões sobre São João Baptista, pouco antes de ser martirizado: «Ora João, que estava no cárcere, tendo ouvido falar das obras de Cristo, enviou-lhe os seus discípulos com esta pergunta: “És Tu aquele que há-de vir, ou devemos esperar outro?” Jesus respondeu-lhes: “Ide contar a João o que vedes e ouvis: Os cegos vêem e os coxos andam, os leprosos ficam limpos e os surdos ouvem, os mortos ressuscitam e a Boa-Nova é anunciada aos pobres. E bem-aventurado aquele que não encontra em mim ocasião de escândalo”.» (Mt. 11, 2-6). No mesmo Evangelho, e no mesmo capítulo, o Apóstolo escreveu ainda: «Depois de eles terem partido, Jesus começou a falar às multidões a respeito de João: “Que fostes ver ao deserto? Uma cana agitada pelo vento? Então que fostes ver? Um homem vestido de roupas luxuosas? Mas aqueles que usam roupas luxuosas encontram-se nos palácios dos reis. Que fostes, então, ver? Um profeta? Sim, Eu vo-lo digo, e mais que um profeta. É aquele de quem está escrito: Eis que envio o meu mensageiro diante de ti, para te preparar o caminho. Em verdade vos digo: Entre os nascidos de mulher, não apareceu ninguém maior do que João Baptista; e, no entanto, o mais pequeno no Reino do Céu é maior do que ele. Desde o tempo de João Baptista até agora, o Reino do Céu tem sido objecto de violência e os violentos apoderam-se dele à força. Porque todos os Profetas e a Lei anunciaram isto até João. E, quer acrediteis ou não, ele é o Elias que estava para vir. Quem tem ouvidos, oiça!”» (Mt. 11, 7-14) Mais adiante, o mesmo Evangelista conta como aconteceu o martírio do Santo Percursor: «Herodes tinha prendido João, algemara-o e metera-o na prisão, por causa de Herodíade, mulher de seu irmão Filipe. Porque João dizia-lhe: “Não te é lícito possuí-la.” Quisera mesmo dar-lhe a morte, mas teve medo do povo, que o considerava um profeta. Ora, quando Herodes festejou o seu aniversário, a filha de Herodíade dançou perante os convidados e agradou a Herodes, pelo que ele se comprometeu, sob juramento, a dar-lhe o que ela lhe pedisse. Induzida pela mãe, respondeu: “Dá-me, aqui num prato, a cabeça de João Baptista.” O rei ficou triste, mas, devido ao juramento e aos convidados, ordenou que lha trouxessem e mandou decapitar João Baptista na prisão. Trouxeram, num prato, a cabeça de João e deram-na à jovem, que a levou à sua mãe. Os discípulos de João vieram buscar o corpo e sepultaram-no; depois, foram dar a notícia a Jesus. (Mt. 14, 3-12). São João Baptista tinha denunciado a devassidão de Herodíade, por isso mesmo esta tinha contra o Precursor um ódio visceral. Aproveitou a ocasião desta dança da filha que — agradou a Herodes — para conseguir os seus intentos: fazer calar para sempre aquele que denunciava publicamente a sua má vida.
A festa de hoje tem origens antigas na Igreja Latina, especialmente na França e em Roma. A celebração está ligada à dedicação de uma igreja construída em Sebaste, perto de seu suposto túmulo. O dia 29 de agosto também comemora a segunda descoberta de sua cabeça, trazida para Roma. João Batista, descrito nos Evangelhos, viveu uma vida austera no deserto e iniciou sua missão por volta de 27-28 d.C., convocando as pessoas a mudarem de vida e acolherem Jesus. Ele criticou os fariseus e proclamou Jesus como o Messias. Denunciou publicamente Herodes e Herodias, pelo que foi preso e depois morto. Durante uma celebração, a filha de Herodias, Salomé, pediu e recebeu a cabeça de João. Ele é considerado o último profeta e o primeiro apóstolo, tendo morrido como mártir por sua fé. 
Patrono: Monges 
Emblema: Cordeiro, Machado 
Martirológio Romano: Comemoração da Paixão de São João Batista, a quem o rei Herodes Antipas aprisionou na fortaleza de Maqueronte, na atual Jordânia, e que, no dia do seu aniversário, a pedido da filha de Herodias, mandou decapitar.
Por isso, o Precursor do Senhor, como uma lâmpada que arde e brilha, testemunhou a verdade tanto em vida como na morte. A cabeça de João Batista "numa bandeja de prata" (cf. Mc 6,25) sempre me impressionou. Aliás, quando eu era criança, na igreja que frequentava, eu podia ver, numa coluna lateral, uma grande cabeça de mármore sobre uma bandeja. Essa lembrança sempre permaneceu na minha mente, e mesmo sem entender de quem era aquela cabeça decepada, a impressão não era negativa, mas sim inspirava em mim um profundo respeito. Creio que a graça do Batismo age na criança mesmo quando ela não tem consciência disso, e muitas vezes as imagens sagradas, capitéis e estátuas são um "catecismo" que toca profundamente as almas. Quando tomei conhecimento da terrível história do martírio de São João Batista, fiquei impressionado com o fato de aquela cabeça decepada ser o emblema de um testemunho que dizia respeito a todos. De fato, São João pregava com franqueza tanto aos fariseus quanto ao povo comum e aos poderosos. Herodes, em particular, era um pagão, pervertido pelo vício, e Jesus, quando levado à sua presença, recusou-se a dignificá-lo com uma palavra. Seu silêncio foi tão eloquente quanto todos os discursos que São João dirigiu a Herodes antes de sua morte. Em certo sentido, então, a cabeça de São João ainda fala, e é um testemunho que deveria abalar as consciências de nossa época, imersas em prazeres pecaminosos e desordem moral: "Herodes e Herodias" se multiplicaram, o escândalo agora é a norma, e o pecado da carne muitas vezes leva ao pecado do homicídio por meio dos abortos que são praticados. No banquete de Herodes, testemunhamos uma cadeia de pecados, cada um mais grave que o anterior, mas interligados. Os pecados listados nesta passagem do Evangelho (cf. Mc 6,17-29) falam-nos da superficialidade humana quando somos subjugados por paixões, frivolidade e ambição. São João, assim como Jesus, foi uma grande repreensão a Herodes, mas não conseguiu levá-lo à conversão porque estava imerso demais em sua perversão. Seu juramento perante os convidados não tinha valor algum; na verdade, constituía um pecado pior do que todos os que ele havia cometido até então. Santo Agostinho comenta: "Em meio à intemperança e à sensualidade dos convidados, juramentos precipitados são feitos e depois cumpridos impiamente". Com essas palavras, o Doutor de Hipona busca explicar a invalidade de um juramento cumprido por respeito humano, e que, em seu absurdo, custou a vida de outrem: onde o hábito do vício causa cegueira intelectual, o respeito humano pode causar as maiores tragédias, com consequências que atingem tanto inocentes quanto justos. Outro aspecto de grande relevância atual é a perversidade e malícia de Herodias: essa mulher queria legitimar seu "poder de pecar à luz do dia". Quantas mulheres hoje caem na mesma tentação... Basta pensar em todas aquelas que alegam legitimar o direito de matar o filho que carregam em nome da "liberdade": sua perversidade é semelhante à dessa mulher do Evangelho e se deve à incapacidade de introspecção, efeito do pecado grave que cega a alma. Herodias não se contentou em contemplar o "troféu" de sua perversão. Diz-se, inclusive, que, insatisfeita com seu ato e tomada por sentimentos de ódio e vingança, quis perfurar a língua da cabeça decapitada com um grande grampo de cabelo. Essa profanação adicional evidencia o estado de angústia em que sua consciência mergulhou: era tão horrível que quase se comparava ao remorso das almas condenadas, fadadas ao inferno eterno por amarem o mal em vez do bem, até o fim. O ato de vingança de Herodias tem um significado profundo e explica muitas das dinâmicas das consequências do pecado. Para ela, São João continuava sendo uma "voz" de reprovação: com o martírio, não era mais a palavra dele que a repreendia, mas o sangue que ela derramara. É como se, ao mandar decapitar o Precursor do Senhor, ela própria tivesse dado ainda mais voz àquela "voz que clama no deserto" (cf. Mt 3,3). De fato, é precisamente na língua do Santo que ela dá maior vazão à sua infelicidade e insatisfação. O homem mais santo nascido de mulher (cf. Lc 7,28) foi martirizado pela obstinação de uma mulher que queria "apagar" o seu testemunho, mas que, em vez disso, o tornou um exemplo para todas as gerações. O aspecto mais aterrador desta história, aliás, é a sua repetição ao longo dos séculos, e particularmente em nossos dias. A cabeça de São João continua a "falar" sempre que a verdade é silenciada, caluniada, desprezada e até profanada. Os exemplos são inúmeros, e bastaria observar o grande poder da mídia em distorcer a verdade com falsidades para perceber que a "corrente de pecados" do banquete de Herodes continua a se repetir na ilusão de poder construir "a própria" verdade, infundada e contraditória. A "voz" daquele que é a primeira grande testemunha e precursor do Verbo Encarnado continua a falar através dos séculos: onde quer que a verdade e a justiça sejam proclamadas, São João Batista é um eco fiel, um testemunho irrevogável de que a verdade jamais é negociável.
Autora: Irmã Óstia do Imaculado Coração 

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