domingo, 6 de setembro de 2026

Santo Eleutério de Spoleto, Abade-Festa: 6 de setembro

A sua oração fez ressusitar 
um morto e fugir o demónio.
Santo Eleutério (nome de origem grega que significa "livre"), nos é conhecido pelos Diálogos de S. Gregório Magno. Eleutério viveu no Séc. VII, religioso, era abade do mosteiro de S. Marcos Evangelista junto aos muros de Espoleto, lugar onde viveu também S. Gregório Magno que, antes de tornar-se Papa, tinha a Santo Eleutério na condição de "Pai venerável". Viveu em Roma muito tempo. Lá morreu também. Os seus discípulos contavam que ele, com a oração, tinha ressuscitado um morto. Era homem de enorme simplicidade e compunção. S. Gregório conta-nos o epísódio em que Santo Eleutério orou, juntamente com os outros irmãos do mosteiro, por uma criança que era atormentada pelo demônio. A criança foi liberta. Também o próprio S. Gregório narra em seus escritos as graças que alcançou para si, a partir da oração de intercessão de Santo Eleutério: "Mas eu pude experimentar pessoalmente a força da oração deste homem. Ouvindo a sua benção, o meu estômago recebeu tal força que esqueceu totalmente a alimentação e a doença. Fiquei pasmado: como tinha estado! Como estava agora!"
Ele é comemorado no Martirológio Romano em 6 de setembro, mas esta não é a sua data de nascimento, que permanece desconhecida; essa data, na verdade, foi escolhida devido à confusão causada pela comemoração no Jerônimo de um bispo chamado Eleutério, sepultado na Via Salária e identificado com o nosso. O ano de sua morte também é desconhecido, mas certamente ocorreu antes de 593. A única fonte de informação sobre Eleutério é São Gregório Magno, que o menciona diversas vezes em seus Diálogos, exaltando suas virtudes e apresentando-o como autor de várias histórias relatadas na obra e de milagres realizados por ele. Eleutério foi abade do mosteiro de São Marcos Evangelista, localizado fora das muralhas de Espoleto, que ele próprio fundou em 535. Já idoso, retirou-se para o mosteiro de Santo André ad Clivum Scauri, em Roma, fundado por São Gregório Magno, onde faleceu. Seu corpo foi posteriormente trasladado para Espoleto. Homem de grande simplicidade e devoção, assíduo na oração, recebeu do Senhor o dom dos milagres, um dos quais realizou para o próprio São Gregório. Venerado como santo no século VIII, seu nome, contudo, só foi incluído nos martirológios muito tardiamente. 
Etimologia: Do grego 'eleutheros', que significa 'livre' ou 'libertador'. 
Emblema: hábito beneditino, báculo da abadia, livro dos Evangelhos. 
Martirológio Romano: Em Spoleto, na Úmbria, Santo Eleutério, abade, cuja simplicidade e contrição de coração foram louvadas pelo Papa São Gregório Magno. 
As informações sobre as origens de Eleutério são muito escassas. Tudo o que podemos afirmar com alguma certeza é que ele viveu no século VI, durante aquele período crucial da história italiana marcado pelas Guerras Góticas e pela chegada dos Lombardos. A Úmbria, e Spoleto em particular, tinha uma localização estratégica e estava profundamente envolvida nos tumultuosos eventos que levaram ao colapso do reino Ostrogodo e ao nascimento do Ducado Lombardo de Spoleto. Nesse contexto de instabilidade política e social, o monasticismo representava um ponto de referência estável para as populações locais. Os mosteiros não eram apenas centros de oração, mas também locais de assistência aos pobres, preservação da cultura e evangelização do campo ainda ligado a práticas pagãs.
A fundação do mosteiro de São Marcos: 
Em 535, Eleutério fundou o mosteiro de São Marcos Evangelista fora das muralhas de Spoleto, em uma área que a tradição local identifica como o local da pequena igreja de São Marcos em Pomeriis. A fundação de um mosteiro naquele período exigia não apenas recursos financeiros, mas também uma organização sólida e uma visão espiritual clara. A decisão de localizar o mosteiro fora das muralhas da cidade seguia uma prática comum no monasticismo primitivo: o distanciamento físico da cidade permitia aos monges viver sua vida contemplativa com mais intensidade, permanecendo, ao mesmo tempo, disponíveis à população para assistência espiritual e material. Eleutério estruturou a comunidade segundo os princípios da vida cenobítica, com oração comunitária, trabalho manual e hospitalidade. A data de 535 é particularmente significativa: ocorre poucos anos antes do início da Guerra Gótica (535-553), que devastaria a Itália. Eleutério demonstrou, assim, uma notável capacidade profética ao criar uma estrutura destinada a se tornar um ponto de referência para a população nas difíceis décadas que se seguiram. 
O Ministério da Abadia 
Como abade, Eleutério liderou a comunidade monástica com sabedoria e firmeza, mas sobretudo com aquela simplicidade de coração que tanto impressionou Gregório Magno. Simplicidade, na linguagem do grande papa, não indica ingenuidade ou ignorância, mas pureza de intenção, transparência de vida, adesão total ao Evangelho sem concessões. A compaixão do coração, outra virtude pela qual Eleutério foi louvado, era considerada pelos Padres do Deserto e pela tradição monástica como uma das maiores graças. Era a capacidade de chorar pelos próprios pecados e pelos do mundo, de manter o coração terno e aberto à misericórdia divina, de viver em constante tensão com Deus. Gregório Magno, em seus Diálogos, relata que Eleutério realizou diversos milagres, embora não entre em detalhes específicos como faz com outros santos. Sabemos, porém, que um desses milagres envolveu o próprio Gregório, o que atesta a relação pessoal entre o abade de Spoleto e o futuro papa. Esse detalhe é importante porque nos permite compreender que Eleutério era conhecido e estimado nos mais altos círculos romanos. 
Retirada em Roma e Morte: 
Em idade avançada, Eleutério deixou o mosteiro que fundara e liderara por tantos anos e retirou-se para o mosteiro de Sant'Andrea al Celio, em Roma, fundado por Gregório Magno em suas terras familiares. Essa mudança não deve ser interpretada como uma partida, mas sim como a conclusão natural de uma jornada espiritual. O mosteiro às margens do Célio havia se tornado, sob a orientação de Gregório, um centro de excelência para a vida monástica romana. Ali, Gregório reunira algumas das melhores figuras religiosas da época, criando uma comunidade que se tornaria o berço de muitos dos futuros bispos e abades da Itália. A presença de Eleutério nesta comunidade representa o reconhecimento de sua estatura espiritual. Foi no Monte Célio que Eleutério terminou sua existência terrena. A data precisa de sua morte é desconhecida, mas sabemos com certeza que ocorreu antes de 593, ano em que Gregório Magno concluiu os Diálogos. Considerando que Eleutério já era idoso quando se mudou para Roma e que fundou o mosteiro em 535, podemos supor que morreu em idade muito avançada, provavelmente na década de 580 ou início da década de 590. 
Transladação das Relíquias e Culto 
Após sua morte, o corpo de Eleutério foi transferido de Roma para Espoleto, onde a devoção popular o acolheu como um patrono celestial. A transladação de relíquias era uma prática comum na Idade Média e atendia ao desejo das comunidades locais de preservar os restos mortais de seus santos. Em Espoleto, o culto a Eleutério enraizou-se profundamente, embora sua inclusão nos martirológios oficiais tenha ocorrido tardiamente. No entanto, no século VIII, ele já era venerado como santo, e sua memória era celebrada em 6 de setembro. Essa data, como vimos, não corresponde ao verdadeiro aniversário de sua morte, mas provavelmente foi escolhida devido à confusão com outro santo chamado Eleutério. A igreja de San Marco in Pomeriis, construída no local do antigo mosteiro, tornou-se o centro do culto a Eleutério e preservou suas relíquias. Ainda hoje, essa pequena igreja, localizada no final da Via delle Felici, representa uma ligação tangível com a figura do antigo abade. 
Os milagres e o testemunho de Gregório Magno 
Gregório Magno dedica o capítulo 33 do Livro III dos Diálogos a Eleutério, colocando-o entre os grandes santos italianos do século VI. O papa romano não lista milagres específicos como faz para outros, mas afirma claramente que Eleutério foi "favorecido por Deus com o dom dos milagres" e que um deles foi realizado para o próprio Gregório. Essa reticência na descrição dos milagres é significativa: Gregório deseja destacar não tanto os aspectos extraordinários da santidade de Eleutério, mas sim suas virtudes interiores, simplicidade e compunção. Para o grande papa, esses dons são mais importantes do que os milagres, porque revelam um coração completamente transformado pela graça divina. A compunção, em particular, era considerada na tradição monástica como uma das mais elevadas graças. Significava ter um coração constantemente contrito, capaz de chorar pelos próprios pecados e pelos do mundo, e manter profunda humildade diante de Deus. Eleutério possuía essa graça em grau eminente, e isso o tornou um verdadeiro mestre da vida espiritual. 
O Mosteiro de San Marco in Pomeriis. 
A igreja de San Marco in Pomeriis, que ainda hoje se ergue em Spoleto, é herdeira direta do mosteiro fundado por Eleutério em 535. O termo "in pomeriis" indica sua localização fora das muralhas da cidade, no pomerium, o espaço sagrado que circundava as muralhas das cidades antigas. O edifício atual, apesar de seu tamanho modesto, conserva vestígios de diferentes períodos de construção. Uma pequena igreja dedicada a San Marco já existia no século VI, e a tradição local atribui sua fundação ao Abade Eleutério. Sua localização, no final da Via delle Felici, no primeiro subúrbio fora das muralhas, reflete perfeitamente a escolha monástica de se distanciar da cidade, mantendo-se, ao mesmo tempo, próximo a ela. Ao longo dos séculos, o mosteiro vivenciou períodos de esplendor e declínio. A comunidade monástica provavelmente sofreu as consequências da invasão lombarda e das guerras que devastaram a Úmbria nos séculos VI e VII. Durante a Idade Média, a igreja foi restaurada e modificada diversas vezes, mas sempre manteve sua dedicação a São Marcos e à memória de seu fundador, Eleutério.
Espiritualidade Eleuteriana 
A espiritualidade de Santo Eleutério, conforme apresentada por Gregório Magno, caracteriza-se por diversos elementos fundamentais que a tornam exemplar para o monasticismo de sua época e para os cristãos de todos os tempos. A simplicidade de coração é a marca distintiva de sua santidade. Não se trata de ingenuidade ou ignorância, mas da pureza de intenção que permite buscar a Deus em todas as coisas, viver o Evangelho sem concessões, ser transparente e autêntico na relação com Deus e com os irmãos e irmãs. Numa época de grandes controvérsias teológicas e políticas, Eleutério representa a simplicidade de quem sabe que o essencial é amar a Deus e ao próximo. A compunção é a outra grande virtude que o caracteriza. Na tradição monástica, a compunção é a capacidade de manter o coração "contrito", isto é, aberto à misericórdia de Deus, capaz de chorar pelos próprios pecados e pelos do mundo. É uma graça que purifica a alma, que mantém a pessoa humilde, que permite acolher a presença de Deus. Eleutério possuía essa graça em grau eminente, o que o tornou um homem de oração constante. A diligência na oração é outro elemento definidor. Para um abade do século VI, a oração não era apenas um dever litúrgico, mas a própria essência da vida. Eleutério dedicava longas horas à oração pessoal e comunitária, e essa intimidade com Deus era a fonte de sua habilidade como guia espiritual. 
Curiosidade: 
Gregório Magno relata que Eleutério realizou um milagre em seu favor, embora não especifique qual. Esse detalhe atesta uma relação direta entre os dois, provavelmente durante a visita de Gregório a Espoleto ou quando Eleutério se mudou para Roma. A data da festa (6 de setembro) foi escolhida por engano, confundindo o nosso Eleutério com um bispo de mesmo nome sepultado na Via Salária. Esse erro se consolidou nos martirológios e persiste até hoje. Eleutério viveu numa época em que Espoleto estava prestes a se tornar a capital de um importante ducado lombardo. Ele provavelmente vivenciou os eventos dramáticos da Guerra Gótica e da invasão lombarda de 568. 
Autor: Enrico Quiri

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