A dar crédito às Atas de Abraão, a existência deste santo eremita foi muito acidentada. Nascido junto de Edessa, na Mesopotâmia, de família abastada, prometeram-no em casamento, ainda novíssimo, a uma jovem muito rica. E, a seguir, obrigaram-no a casar-se com ela. As bodas duraram sete dias, mas, à última hora, Abraão fugiu e foi esconder-se numa grande cabana, cujas entradas tapou, deixando apenas um postigo por onde lhe passavam a comida. Verificando que não podiam contar com ele, os parentes da esposa deixaram-no levar em paz a vida de oração e penitência para que era chamado.
Dez anos depois, o bispo de Edessa tirou-o do retiro à força e, depois de o ordenar sacerdote, mandou-o evangelizar uma aldeia pagã chamada Beth-Kiduna, onde até então nenhum missionário conseguira fazer conversões. Abraão construiu lá uma igreja e destruiu todos os ídolos encontrados. Este zelo acarretou-lhe toda a espécie de maus-tratos; suportou-os com paciência e, à força de perseverança e bons exemplos, acabou por converter e batizar todos os habitantes de Beth-Kiduna. Prolongou ainda a sua estadia entre eles durante um ano, a fim de os fortificar na fé; e, a seguir, depois de pedir a Deus lhes mandasse outro pastor melhor do que ele, deixou-os sem se despedir e voltou para o seu retiro.
Entaipou outra vez a cela, que esperava não deixar de novo. As circunstâncias obrigaram-no, porém, a sair outra vez, a fim de acudir a uma sobrinha, chamada Maria, que levava vida de pecado numa cidade a dois dias de jornada. Disfarçado em soldado, conseguiu cear com ela, lançou-lhe em rosto a vergonha da sua vida e teve o gosto de a persuadir eficazmente a voltar ao bom caminho. Maria retirou-se para um deserto onde expiou as suas faltas e elevou-se até à santidade. Abraão sobreviveu à conversão da sobrinha. Julga-se que morreu septuagenário, em meados do século IV. Toda a cidade de Edessa tomou parte no funeral, e consideraram-se felizes os que puderam obter um bocado do seu cilício.
Santos de Cada Dia - Editorial A.O. - Braga

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