Entre os primeiros mártires cristãos, Tibúrcio foi sepultado no cemitério “ad Duas Lauros”, na Via Labicana, em Roma, como narram os Itinerários do século VII. O Papa São Dâmaso enalteceu as virtudes heroicas deste Santo, cuja parte do seu corpo é venerada no altar-mor da igreja de Santo Apolinário.
(†)Roma, por volta de 286
Sabemos com certeza sobre ele apenas o que as fontes epigráficas e litúrgicas mais antigas nos fornecem: seu nome, a data de sua morte e o local de seu sepultamento no cemitério "ad Duas Lauros", no terceiro quilômetro da Via Labicana. Contudo, essa aparente escassez de informações não impediu que a devoção popular e a tradição hagiográfica construíssem em torno dele uma narrativa rica em eventos, milagres e ensinamentos espirituais. O Papa Dâmaso I, grande promotor do culto aos mártires no século IV, honrou-o com uma inscrição monumental, e nos séculos seguintes sua memória se entrelaçou com a de outros santos, como Susana, celebrada no mesmo dia.
Etimologia: Do latim Tiburtius, que significa 'vindo de Tibur' (o antigo nome de Tivoli).
Emblema: Palma do martírio, brasas ardentes sob os pés descalços, dalmática do subdiácono.
Martirológio Romano: Em Roma, no terceiro quilômetro da Via Labicana, no cemitério ad Duas Lauros, São Tibúrcio, cujos louvores foram celebrados pelo Papa São Dâmaso.
A documentação historicamente confiável sobre São Tibúrcio (Tiburtius, em latim; Tiburce, em francês; Tiburcio, em espanhol e português) limita-se a poucos, porém extraordinariamente valiosos, elementos. O Martirológio Romano, em sua edição atual, o comemora com estas palavras: "Em Roma, no terceiro quilômetro da Via Labicana, no cemitério 'ad Duas Lauros', São Tibúrcio, cujos louvores foram celebrados pelo Papa São Dâmaso."
Este breve texto contém dois fatos essenciais: seu local de sepultamento e a autoridade de sua memória. O cemitério "ad Duas Lauros" (literalmente "nos dois louros") era um complexo funerário localizado na atual área de Torpignattara, ao longo da Via Casilina, que corresponde à antiga Via Labicana. Hoje, é conhecido como Catacumbas dos Santos Marcelino e Pedro, em homenagem aos dois mártires mais famosos ali sepultados. Tibúrcio era venerado juntamente com eles, assim como outro mártir chamado Gorgônio.
O elemento mais precioso, porém, é a referência ao Papa Dâmaso I, que liderou a Igreja de Roma de 366 a 384. Dâmaso foi o grande arquiteto da redescoberta e monumentalização dos túmulos dos mártires romanos: ele próprio compôs dezenas de epigramas em sua homenagem, que foram gravados em placas de mármore e colocados perto dos túmulos. O epigrama dedicado a Tibúrcio, preservado como número 23 na coleção de Dâmaso, diz: "Quando a espada cortou o ventre piedoso de sua mãe, o ilustre mártir, desprezando o príncipe deste mundo, busca as alturas do céu na companhia de Cristo. Aqui permanecerá para sempre honra e louvor sagrado. Gentil Tibúrcio, amado de Deus, eu te imploro, cuida de Dâmaso."
O texto, de grande intensidade poética, confirma que Tibúrcio já era objeto de veneração na segunda metade do século IV, quando Dâmaso compôs a epígrafe. A expressão "quando a espada cortou as entranhas piedosas" poderia aludir a uma mãe que também foi mártir, ou ser uma metáfora para o martírio do próprio santo, cuja morte violenta lhe abriu as portas do céu.
Martírio segundo a tradição hagiográfica.
Todas as informações narrativas sobre a vida e a morte de Tibúrcio provêm de uma fonte tardia: a Passio Sancti Sebastiani, a lenda de São Sebastião, provavelmente composta entre os séculos V e VII. Os historiadores concordam que este texto é uma obra de ficção hagiográfica, sem base histórica ou documental, mas valiosa para a compreensão de como a memória dos mártires era elaborada e transmitida na Idade Média.
Segundo essa tradição, Tibúrcio era filho de Cromácio (ou Agréscio Cromácio), prefeito de Roma, que se converteu ao cristianismo por intercessão de Santo Tranquilino, pai dos mártires Marcos e Marceliano. Após o batismo, recebido pela intercessão de São Sebastião (que foi seu padrinho), Tibúrcio abraçou a carreira eclesiástica.Recebendo a ordem de subdiaconato.
A narrativa prossegue descrevendo seu martírio durante a perseguição de Diocleciano. Traído por um apóstata, Tibúrcio foi levado perante o juiz Fabiano. Quando lhe pediram que fizesse um sacrifício aos deuses romanos, o jovem respondeu firmemente: "Sacrifico apenas a um Deus, o Criador do mundo, que reina no céu e na terra, e meu maior desejo é ser imolado e sacrificado por esta confissão".
Para provar sua fé, foi condenado a caminhar descalço sobre brasas. Conta-se que Tibúrcio atravessou o fogo ileso, exclamando: "Saibam que o Deus dos cristãos é o único Deus, pois estas brasas me parecem flores". Os juízes, porém, atribuíram o milagre a um feitiço, e o mártir foi condenado à decapitação. A execução ocorreu no local conhecido como "ai due laureli", que mais tarde deu nome ao complexo do cemitério.
Entre a História e a Lenda: A Questão da Data.
Uma observação crítica se faz necessária em relação à data tradicional do martírio, fixada pela tradição em 286 d.C. Essa datação apresenta um problema cronológico: a grande perseguição diocleciana, durante a qual os eventos narrados teriam ocorrido, começou oficialmente apenas em 303, com os primeiros éditos imperiais. É provável, portanto, que a data de 286 tenha sido estabelecida posteriormente pela tradição hagiográfica, talvez para situar o martírio em um contexto anterior à grande perseguição, ou talvez simplesmente devido a uma imprecisão cronológica.
Os estudiosos atuais preferem falar genericamente de um martírio ocorrido no século III, durante uma das ondas periódicas de repressão contra os cristãos que caracterizaram esse período. A única certeza que resta é o culto atestado no século IV pelo Papa Dâmaso e a presença do túmulo no cemitério ad Duas Lauros.
Deve-se notar também que Tibúrcio não é o único santo com esse nome venerado pela Igreja Romana. Existe outro Tibúrcio, comemorado em 14 de abril, que, segundo a tradição, era irmão de Valeriano (marido de Santa Cecília) e martirizado junto com Valeriano e Máximo na Via Ápia. Os dois santos, apesar de compartilharem o nome, são figuras distintas, com dias de festa, locais de sepultamento e tradições hagiográficas completamente diferentes.
O complexo do cemitério ad Duas Lauros,
onde São Tibúrcio foi sepultado, é um dos mais importantes e antigos complexos de catacumbas de Roma. Localizado no terceiro quilômetro da Via Labicana (atual Via Casilina), na área de Torpignattara, o local deve seu nome à presença de dois loureiros (lauros em latim) que marcavam sua entrada. O complexo é hoje conhecido como Catacumbas de São Marcelino e São Pedro, em homenagem aos dois mártires mais famosos ali sepultados, cujos restos mortais foram transferidos no início da Idade Média.
O vasto cemitério começou a ser construído no século III e permaneceu em uso até o século V. Além de Marcelino e Pedro, Tibúrcio e Gorgônio, também mártires, eram venerados. O Papa Dâmaso embelezou os túmulos com epigramas em mármore e construiu escadarias de acesso mais largas para facilitar as peregrinações.
No século IX, devido ao abandono das catacumbas e à ameaça de ataques sarracenos, as relíquias dos mártires foram transferidas para igrejas da cidade. A basílica com vista para as catacumbas, construída por Constantino sobre o mausoléu de sua mãe Helena, tornou-se um dos principais locais de culto na Roma cristã.
A
iconografia de São Tibúrcio é bastante limitada e baseia-se quase exclusivamente na tradição hagiográfica do milagre das brasas. Nas representações artísticas, o santo é geralmente retratado como um jovem com hábito de subdiácono (dalmática litúrgica), com a palma do martírio em uma das mãos e os pés descalços apoiados em brasas na outra.
Às vezes, ele é acompanhado por outro jovem ou por um sacerdote, de acordo com atributos iconográficos que nem sempre são consistentes. Em algumas representações, um anjo também aparece, simbolizando a proteção divina durante o milagre do fogo.
Sua imagem não é difundida na arte sacra, principalmente devido à escassez de documentação histórica sobre ele e à sobreposição com outros santos de mesmo nome ou celebrados no mesmo dia.
Culto e igrejas dedicadas
Apesar da escassez de informações históricas, São Tibúrcio gozou de um culto significativo em diversas regiões da Itália. Várias igrejas e oratórios foram dedicados a ele ao longo dos séculos.
Em Parma, havia o Oratório de São Tibúrcio, uma joia do barroco parmanês, construído em 1722 pelo arquiteto Adalberto Della Nave. O edifício, de planta octogonal com uma elegante cúpula poligonal, foi dessacralizado e é agora utilizado para eventos culturais.
Em Besozzo, na província de Varese, a igreja paroquial é dedicada aos Santos Alessandro e Tibúrcio. O edifício, de origens antigas, mas reconstruído em estilo moderno, domina a cidade do alto de uma colina.
Em San Benigno Canavese, na província de Turim, São Tibúrcio é venerado como padroeiro, com celebrações tradicionalmente realizadas em julho.
A comemoração litúrgica:
A festa de São Tibúrcio é celebrada em 11 de agosto, dia de seu presumido martírio. No mesmo dia, a Igreja também comemora Santa Susana, mártir romana do mesmo período, com quem Tibúrcio não tem nenhuma ligação histórica ou hagiográfica. A coincidência das datas levou a uma comemoração conjunta nos calendários litúrgicos, mas os dois santos permanecem figuras distintas.
Em 1969, com a reforma do Calendário Romano Geral após o Concílio Vaticano II, a comemoração de São Tibúrcio foi retirada do calendário universal, embora ele tenha permanecido no Martirológio Romano. Essa decisão foi motivada pela falta de informações históricas confiáveis sobre o santo: "além de seu nome, a única coisa que se sabe sobre ele é que foi sepultado no cemitério Interduas Lauros, na Via Labicana, em 11 de agosto". No entanto, o culto local nas igrejas dedicadas a ele permaneceu inalterado.
Autor: Enrico Quiri

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