Evangelho segundo São Marcos 8,14-21.
Naquele tempo, os discípulos esqueceram-se de arranjar comida e só tinham consigo um pão no barco.
Então Jesus recomendou-lhes: «Tende cuidado com o fermento dos fariseus e o fermento de Herodes».
Eles discutiam entre si, dizendo: «Fala assim porque não temos pão».
Mas Jesus ouviu-os e disse-lhes: «Porque estais a discutir que não tendes pão? Ainda não entendeis nem compreendeis? Tendes o coração endurecido?
Tendes olhos e não vedes, ouvidos e não ouvis?
Não vos lembrais quantos cestos de bocados recolhestes, quando Eu parti os cinco pães para as cinco mil pessoas?». Eles responderam: «Doze».
«E quantos cestos de bocados recolhestes, quando reparti sete pães para as quatro mil pessoas?». Eles responderam: «Sete».
Disse-lhes então Jesus: «Não entendeis ainda?».
Tradução litúrgica da Bíblia
(1675-1751)
Jesuíta
Abandono na Providência divina (§26)
«Ainda não entendeis nem compreendeis?»
Se perfurássemos o véu, e se estivéssemos vigilantes e atentos, Deus revelar-Se-nos-ia sem cessar e usufruiríamos da sua ação em tudo quanto nos acontece, dizendo perante todas as coisas: «Dominus est, é o Senhor!» (Jo, 21,7); e descobriríamos em todas as circunstâncias um dom de Deus.
Consideraríamos as frágeis criaturas instrumentos de um obreiro omnipotente; e reconheceríamos sem dificuldade que nada nos falta, e que a contínua atenção de Deus O leva a proporcionar-nos em cada instante aquilo que nos convém. Se tivéssemos fé, teríamos boa vontade para com todas as criaturas; haveríamos de as acariciar, interiormente gratos pelo facto de elas servirem e se tornarem favoráveis à nossa perfeição, aplicada pela mão de Deus. Se vivêssemos ininterruptamente uma vida de fé, estaríamos em permanente comércio com Deus, falando com Ele a todo o momento.
A fé é intérprete de Deus; sem os esclarecimentos que ela proporciona, não compreendemos a linguagem das criaturas. Esta é uma escrita em números, onde apenas vemos confusão; uma amálgama de espinhos, de onde não nos ocorre que Deus possa falar. Mas a fé permite-nos ver, como Moisés, o fogo da caridade divina que arde no seio destes espinhos (cf Ex 3,2); a fé dá-nos a chave destes números, permitindo-nos descobrir, no meio da confusão, as maravilhas da sabedoria do alto. A fé confere um rosto celeste a toda a terra; é por meio dela que o coração é transportado, arrebatado, para ter a sua conversa no Céu. A fé é a chave dos tesouros, a chave do abismo, a chave da ciência de Deus.

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