Falamos muito da necessidade da oração. Mas os orantes são poucos. Sentimos uma permanente necessidade de rezar e muito. É o que dizemos. O que fazemos? Sabemos rezar? Faltam mestres de oração. Para mim o Papa Francisco é um mestre de oração. Refletindo sua Exortação Apostólica Gaudete et Exultate, passamos a compreender a importância que dá à oração. Diz ele: “Lembremos que a santidade é feita de abertura habitual à transcendência, que se expressa na oração e na adoração. O santo é uma pessoa orante que tem necessidade de se comunicar com Deus” (GE 147). Pela experiência pessoal e pelo contato com muitas pessoas, podemos dizer que não sabemos rezar. E, o que aparece por aí, não responde a um projeto de santidade na oração. O Papa lembra S. João da Cruz que recomendava que se procurasse “andar na presença de Deus”, cada um a seu modo (GE 147). Não se trata de ficar falando a Deus, mas deixá-Lo falar. “Trata-se do desejo de Deus que não pode deixar de se manifestar em nossa vida diária: “procura que a tua oração seja contínua e, no meio dos exercícios corporais, não a deixes. ‘Quando comes, bebes, conversas com outros, ou em qualquer outra coisa que faças, sempre deseja a Deus e prende a Ele o teu coração”’ (GE 148). Como ensina S. Teresa, para que tenhamos essa oração permanente, não falação permanente, “são necessários também alguns tempos dedicados só a Deus, na solidão com Ele...É uma relação íntima de amizade, permanecendo muitas vezes a sós com quem sabemos que nos ama” (GE 149).
No silêncio da vida.
Vivemos em contínuo rumor. Precisamos estar sempre no barulho. Podemos viver no meio da multidão em silêncio e também estar sozinhos com a multidão dentro de nós. O silêncio interior é uma conquista dolorosa. O Papa Francisco explica: “A oração confiante é uma resposta do coração que se abre a Deus face a face, onde são silenciados todos os rumores para escutar a voz suave do Senhor que ressoa no silêncio” (EG 149). É um processo difícil que exige que nos esforcemos para cortar um pouco os rumores externos e estarmos atentos em ouvir os necessitados. Assim somos capazes de silenciar “outras coisas”. Nossos pecados fazem muito barulho. “No silêncio, é possível discernir, à luz do Espírito, os caminhos de santidade que o Senhor nos propõe” (GE 150). É preciso deixar-se contemplar por Deus. Deus nos olha silenciosamente amando-nos. Contemplá-Lo recompõe nossa humanidade, afirma o Papa. Não se trata de um silêncio que nos tire do mundo, mas nos leve a ouvir e ajudar os necessitados a terem sentido. Nossa história faz parte desse silêncio. A memória agradecida, como ensina Santo Inácio, nos faz inteiros.
O humano da oração
A oração é também súplica, pois é “expressão do coração que confia em Deus, pois sabe que sozinho não consegue... A súplica de intercessão tem um valor particular, porque é um ato de confiança em Deus e, ao mesmo tempo, uma expressão de amor ao próximo” (GE 154). A oração é também adoração, reconhecendo-O. O coração humano encontra Deus na leitura orante da Palavra de Deus. Ela tem força de vida. Ela nos transforma. Cheios da Palavra, abrimos espaço para a Eucaristia. A Palavra se faz pão. “E, quando O recebemos na Comunhão, renovamos a nossa aliança com Ele e consentimos realizar cada vez mais a sua obra transformadora”, diz o Papa Francisco.
ARTIGO PUBLICADO EM MARÇO DE 2019

Nenhum comentário:
Postar um comentário