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O historiador romano Suetónio diz-nos sobre este acontecimento que tinha expulso os Judeus porque "provocavam tumultos por causa de um certo Cresto" (cf. Vita dei dodici Cesari, Claudio", 25). Vê-se que não conhecia bem o nome em vez de Cristo escreve "Cresto" e tinha apenas uma ideia muito vaga de quanto tinha acontecido. Contudo, haviam discórdias no interior da comunidade judaica sobre a questão se Jesus era o Cristo. E estes problemas eram para o imperador o motivo para simplesmente expulsar de Roma todos os Judeus. Disto se deduz que o casal tinha abraçado a fé cristã já em Roma nos anos 40, e agora tinham encontrado em Paulo alguém que não só partilhava com eles esta fé que Jesus é o Cristo mas que também era apóstolo, chamado pessoalmente pelo Senhor Ressuscitado. Por conseguinte, o primeiro encontro dá-se em Corinto, onde o recebem em casa e trabalham juntos na fabricação de tendas.
Num segundo momento, eles transferem-se para a Ásia Menor, para Éfeso. Ali tiveram uma parte determinante em completar a formação cristã do judeu alexandrino Apolo, do qual falámos na quarta-feira passada. Dado que ele conhecia apenas superficialmente a fé cristã, "Priscila e Áquila, que o tinham ouvido, tomaram-no consigo e expuseram-lhe, com mais clareza, o Caminho do Senhor" (Act 18, 26). Quando de Éfeso o Apóstolo Paulo escreve a sua Primeira Carta aos Coríntios, junta explicitamente às suas saudações também as de "Áquila e Prisca, com a comunidade que se reúne na sua casa" (16, 19). Assim chegamos ao conhecimento do papel importantíssimo que este casal desempenha no âmbito da Igreja primitiva: isto é, o de receber na própria casa o grupo dos cristãos locais, quando eles se reuniam para ouvir a Palavra de Deus e para celebrar a Eucaristia. É precisamente aquele tipo de reunião que em grego se chama "ekklesìa" a palavra latina é "ecclesia", a italiana "chiesa" que significa convocação, assembleia, reunião.
Portanto, na casa de Áquila e Priscila reúne-se a Igreja, a convocação de Cristo, que celebra os Mistérios sagrados. E assim podemos ver o nascimento precisamente da realidade da Igreja nas casas dos crentes. De facto, os cristãos até finais do século III não tinham lugares próprios de culto: foram estas, num primeiro tempo, as sinagogas judaicas, até quando a originária simbiose entre Antigo e Novo Testamento se dissolveu e a Igreja das Nações foi obrigada a dar-se uma própria identidade, sempre profundamente enraizada no Antigo Testamento. Depois desta "ruptura", os cristãos reunem-se nas casas, tornam-se assim "Igreja". E por fim, no século III, surgem verdadeiros e próprios edifícios de culto cristão. Mas na primeira metade do século I e no século II, as casas dos cristãos tornam-se verdadeira e própria "igreja". Como disse, lêem juntos as Sagradas Escrituras e celebram a Eucaristia. Acontecia assim, por exemplo, em Corinto, onde Paulo menciona "Gaio, que me recebe como hóspede, assim como a toda a igreja" (Rm 16, 23), ou em Laodiceia, onde a comunidade se reunia na casa de uma certa Ninfa (cf. Cl 4, 15), ou em Colossos, onde o encontro se realizava em casa de um certo Arquipo (cf. Fm 2).
Tendo sucessivamente regressado a Roma, Áquila e Priscila continuaram a desempenhar esta preciosíssima função também na capital do Império. De facto, Paulo escrevendo aos Romanos, envia esta saudação: "Saudai Priscila e Áquila, meus colaboradores em Cristo Jesus, pessoas que, pela minha vida, expuseram a sua cabeça. Não sou apenas eu a estar-lhes agradecido, mas todas as igrejas dos gentios. Saudai também a igreja que se reúne em casa deles" (Rm 16, 3-5). Que extraordinário elogio do casal nestas palavras! E quem a faz é precisamente o Apóstolo Paulo. Ele reconhece explicitamente neles dois verdadeiros colaboradores do seu apostolado. A referência ao facto de ter arriscado a vida por ele deve relacionar-se provavelmente com intervenções em seu favor durante algum seu aprisionamento, talvez em Éfeso (cf. Act 19, 23; 1 Cor 15, 32; 2 Cor 1, 8-9). E que à própria gratidão Paulo associe até a de todas as Igrejas das Nações, mesmo considerando a expressão talvez bastante hiperbólica, deixa intuir como é vasto o seu raio de acção e, contudo, a sua influência em benefício do Evangelho.
A tradição hagiográfica posterior conferiu um realce muito particular a Priscila, mesmo se permanece o problema de uma sua identificação com outra Priscila mártir. Contudo, aqui em Roma temos quer uma igreja dedicada a Santa Prisca no Aventino quer as Catacumbas de Priscila na via Salária. Deste modo perpetua-se a memória de uma mulher, que certamente foi uma pessoa activa e de muito valor na história do cristianismo romano. Uma coisa é certa: juntamente com a gratidão daquelas primeiras Igrejas, das quais fala São Paulo, deve juntar-se também a nossa, porque graças à fé e ao compromisso apostólico dos fiéis leigos, de famílias, esposos como Priscila e Áquila o cristianismo chegou à nossa geração. Podia crescer não só graças aos Apóstolos que o anunciavam. Para se radicar na terra do povo, para se desenvolver vivamente, era necessário o compromisso destas famílias, destes esposos, destas comunidades cristãs, de fiéis leigos que ofereceram o "húmus" ao crescimento da fé. E sempre, só assim a Igreja cresce. Em particular, este casal demonstra como é importante a acção dos casais cristãos. Quando eles são amparados pela fé e por uma forte espiritualidade, torna-se natural um seu compromisso pela Igreja e na Igreja. A comunhão quotidiana da sua vida prolonga-se e de certa forma sublima-se na assunção de uma responsabilidade comum em favor do Corpo místico de Cristo, mesmo que fosse de uma pequena parte dele. Assim era na minha geração e assim será com frequência.
Do seu exemplo podemos tirar outra lição que não devemos descuidar: cada casa pode transformar-se numa pequena igreja. Não só no sentido de que nela deve reinar o típico amor cristão feito de altruísmo e de solicitude recíproca, mas ainda mais no sentido de que toda a vida familiar, com base na fé, está chamada a girar em volta da única senhoria de Jesus Cristo. Não é ocasionalmente que na Carta aos Efésios Paulo compara a relação matrimonial com a comunhão esponsal que existe entre Cristo e a Igreja (cf. Ef 5, 25-33). Aliás, poderíamos considerar que o Apóstolo modele indirectamente a vida da Igreja inteira sobre a da família. E a Igreja, na realidade, é a família de Deus. Por isso honramos Áquila e Priscila como modelos de uma vida conjugal responsavelmente comprometida ao serviço de toda a comunidade cristã. E encontramos neles o modelo da Igreja, família de Deus para todos os tempos.”(Papa Bento XVI: Audiência do dia 7 de Fevereiro de 2007).
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