quarta-feira, 5 de março de 2025

Quarta-feira de cinzas Festa: 5 de março

A Quarta-feira de Cinzas, cuja liturgia é historicamente marcada pelo início da penitência pública, que teve lugar neste dia, e pela intensificação da instrução dos catecúmenos, que deviam ser baptizados durante a Vigília Pascal, abre agora o tempo salutar da Quaresma. O espírito comunitário de oração, de sinceridade cristã e de conversão ao Senhor, que os textos da Sagrada Escritura proclamam, exprime-se simbolicamente no rito das cinzas espalhadas sobre as nossas cabeças, ao qual nos submetemos humildemente em resposta à Palavra de Deus. Para além do significado que estes costumes tiveram na história das religiões, o cristão adopta-os em continuidade com as práticas expiatórias do Antigo Testamento, como "símbolo austero" do nosso caminho espiritual, durante toda a Quaresma, e para reconhecer que o nosso corpo, formado de pó, voltará como tal, como sacrifício prestado ao Deus da vida em união com a morte do seu Filho unigénito. É por isso que a Quarta-feira de Cinzas, assim como o resto da Quaresma, não tem sentido em si mesma, mas nos remete ao evento da Ressurreição de Jesus, que celebramos interiormente renovados e com a firme esperança de que nossos corpos sejam transformados como o seu. A Renovação Pascal é anunciada para toda a humanidade pelos crentes em Jesus Cristo, que, seguindo o exemplo do divino Mestre, jejuam dos bens e das seduções do mundo, que o Maligno nos apresenta para nos fazer cair em tentação. A redução do alimento do corpo é um sinal eloquente da disponibilidade do cristão para a acção do Espírito Santo e da nossa solidariedade para com aqueles que esperam na pobreza a celebração do eterno e definitivo banquete pascal. Assim, portanto, a renúncia a outros prazeres e satisfações legítimas completará o quadro exigido para o jejum, transformando este período de graça num anúncio profético de um mundo novo, reconciliado com o Senhor. Martirológio Romano: Dia de Cinzas e início da Santíssima Quaresma: estes são os dias de penitência para a remissão dos pecados e a salvação das almas. Aqui é o momento certo para a subida ao monte sagrado da Páscoa. A origem da Quarta-feira de Cinzas encontra-se na antiga prática penitencial. Originalmente, o sacramento da penitência não era celebrado da maneira atual. O liturgista Pelagio Visentin enfatiza que a evolução da disciplina penitencial é tripla: "de uma celebração pública para uma celebração privada; de uma reconciliação com a Igreja, concedida apenas uma vez, a uma celebração frequente do sacramento, entendido como um remédio de ajuda na vida do penitente; de uma expiação, antes da absolvição, prolongada e rigorosa, para uma satisfação, posterior à absolvição". A celebração das cinzas nasceu por causa da celebração pública da penitência, na verdade foi o rito que iniciou o caminho de penitência dos fiéis que seriam absolvidos de seus pecados na manhã da Quinta-feira Santa. Com o tempo, o gesto da imposição das cinzas foi estendido a todos os fiéis e a reforma litúrgica considerou oportuno preservar a importância deste sinal. A teologia bíblica revela um duplo significado do uso das cinzas. 1 - Em primeiro lugar, são um sinal da condição fraca e frágil do homem. Abraão, voltando-se para Deus, diz: "Vede como me atrevo a falar ao meu Senhor, eu que sou pó e cinza..." (Gênesis 18:27). Job, reconhecendo o profundo limite da própria existência, com um sentido de extrema prostração, diz: «Lançou-me na lama, tornei-me pó e cinza» (Job 30, 19). Em muitas outras passagens bíblicas podemos encontrar esta dimensão precária do homem simbolizada pelas cinzas (Sb 2, 3; Senhor 10,9; Sir 17, 27). 2 - Mas as cinzas também são o sinal externo daqueles que se arrependem de suas más ações e decidem fazer uma jornada renovada em direção ao Senhor. Particularmente conhecido é o texto bíblico da conversão dos habitantes de Nínive por causa da pregação de Jonas: "Os cidadãos de Nínive creram em Deus e proclamaram um jejum, vestiram-se de saco, desde o maior até o menor. Quando a notícia chegou ao rei de Nínive, levantou-se do seu trono, despiu-se do seu manto, cobriu-se de saco e sentou-se sobre as cinzas» (Jo 3, 5-9). Judite convida também todo o povo a fazer penitência para que Deus intervenha para libertá-los: «Todos os israelitas, homens e mulheres e crianças que habitavam em Jerusalém prostraram-se diante do templo e aspergiram cinzas sobre as suas cabeças e, vestidos de saco, levantaram as mãos diante do Senhor» (Jdt 4, 11). A liturgia simples, mas envolvente, da Quarta-feira de Cinzas conserva este duplo significado, que se explicita nas fórmulas de imposição: «Lembra-te de que és pó e ao pó voltarás» e «Arrependei-vos e acreditai no Evangelho». Adrien Nocent ressalta que a velha fórmula (Lembre-se de que você é pó...) está intimamente ligada ao gesto de derramar cinzas, enquanto a nova fórmula (Converter...) expressa melhor o aspecto positivo da Quaresma, que começa com esta celebração. O próprio liturgista propõe uma solução ritual muito significativa: "Se o assunto não fosse muito longo, a velha e a nova fórmula poderiam ser unidas, o que, juntos, certamente expressaria melhor o significado da celebração: 'Lembre-se de que você é pó e ao pó voltará; convertei-vos, pois, e acreditai no Evangelho». O rito da imposição das cinzas, embora celebrado após a homilia, substitui o ato penitencial da Missa; além disso, também pode ser realizado sem a Missa através deste esquema celebrativo: hino de entrada, coleta, leituras próprias, homilia, imposição de cinzas, oração dos fiéis, bênção solene do tempo quaresmal, despedida. As cinzas podem ser impostas em todas as celebrações eucarísticas das quartas-feiras, mas será oportuno indicar uma celebração comunitária "privilegiada", na qual se valorize ainda mais a dimensão eclesial do caminho de conversão que se inicia. 
Autor: Enrico Beraudo

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