Evangelho segundo São João 12,24-26.
Naquele tempo, disse Jesus aos discípulos: «Em verdade, em verdade vos digo: se o grão de trigo, lançado à terra, não morrer, fica só; mas, se morrer, dará muito fruto.
Quem ama a sua vida, perdê-la-á, e quem despreza a sua vida neste mundo, conservá-la-á para a vida eterna.
Se alguém Me quiser servir, que Me siga, e onde Eu estiver, ali estará também o meu servo. E, se alguém Me servir, meu Pai o honrará.
Tradução litúrgica da Bíblia
(380-444)
Bispo, doutor da Igreja
Comentário sobre o
Livro dos Números, 2; PG 69, 619
«Se o grão de trigo morrer,
dará muito fruto»
Cristo, primícias da nova criação, depois de ter vencido a morte, ressuscitou e subiu para o Pai como oferenda magnífica e esplendorosa, como as primícias do género humano, renovado e incorruptível. Podemos dizer que Ele é o símbolo do feixe de primícias da colheita que o Senhor estabeleceu que Israel oferecesse no Templo (cf Lv 23, 9). O que representa este sinal?
Podemos comparar o género humano às espigas de um campo, que nascem da terra, ficam à espera de crescer e, depois de amadurecerem, são apanhadas pela morte. Era por isso que Cristo dizia aos seus discípulos: «Não dizeis vós que dentro de quatro meses chegará o tempo da colheita? Pois bem, Eu digo-vos: Erguei os olhos e vede os campos, que já estão loiros para a ceifa. Já o ceifeiro recebe o salário e recolhe o fruto para a vida eterna» (Jo 4, 35-36). Ora, Cristo nasceu entre nós da Virgem Santa, como as espigas brotam da terra; aliás, Ele não hesita em afirmar de Si próprio que é o grão de trigo: «Em verdade, em verdade vos digo: se o grão de trigo, lançado à terra, não morrer, fica só; mas, se morrer, dará muito fruto». E ofereceu-Se por nós ao Pai, à maneira de um feixe e como primícias da terra.
Porque a espiga de trigo, como aliás nós próprios, não pode ser considerada isoladamente: vemo-la num feixe, constituído por numerosas espigas de um mesmo braçado. Cristo Jesus é único, mas aparece-nos como um feixe, e constitui efetivamente uma espécie de braçado, no sentido em que contém em Si todos os crentes, em união espiritual, evidentemente. Se assim não fosse, como poderia São Paulo escrever: «Com Ele nos ressuscitou e com Ele nos fez sentar nos Céus» (Ef 2,6)? Com efeito, uma vez que Ele Se fez um de nós, nós formamos com Ele um mesmo corpo (cf Ef 3,6). Aliás, é Ele quem dirige estas palavras a seu Pai: «Que eles sejam todos um, como Tu, Pai, o és em Mim e Eu em Ti» (Jo 17,21). O Senhor constitui, pois, as primícias da humanidade, que está destinada a ser armazenada nos celeiros do Céu.

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