Membro do Sinédrio de Jerusalém, nos Atos dos Apóstolos ele é apresentado como um fariseu respeitado pelo povo, capaz de moderar a severidade de seus colegas para com os primeiros cristãos. Durante o julgamento dos apóstolos, aconselhou prudência, argumentando que, se a obra deles fosse meramente humana, fracassaria, enquanto que, se viesse de Deus, não poderia ser destruída. A tradição cristã subsequente o identificou como um discípulo secreto de Cristo e como aquele que facilitou a conversão de São Paulo, seu suposto discípulo. Esses elementos, contudo, pertencem à tradição hagiográfica e não podem ser historicamente verificados. Segundo antigas narrativas cristãs, Gamaliel abraçou a mensagem do Evangelho nos últimos anos de sua vida e foi sepultado ao lado de Santo Estêvão, o primeiro mártir, e outras figuras ligadas à Igreja apostólica. Seu culto, que se desenvolveu especialmente no Oriente, o recordava como um exemplo de sabedoria, equilíbrio e abertura à busca da verdade.
Etimologia: Deriva do hebraico Gamal'el, formado por gamal, 'recompensa', 'recompensar', e El, 'Deus', com o significado de 'Deus recompensou' ou 'a recompensa de Deus'.
Emblema: Pergaminho da Lei, vestes de um doutor da lei, às vezes representado junto com Santo Estêvão e São Paulo.
O Gamaliel mencionado nos Atos dos Apóstolos pertence ao mundo religioso judaico da primeira metade do primeiro século. Ele era fariseu e especialista na Lei Mosaica, pertencente à escola rabínica fundada por seu avô Hillel, o Ancião, uma das correntes mais influentes do judaísmo da época.
O livro de Atos o descreve como "honrado por todo o povo" e o apresenta como membro do Sinédrio, o mais alto órgão religioso e judicial judaico em Jerusalém na época. Ele surge como um homem prudente, capaz de avaliar os acontecimentos com equilíbrio.
Sua intervenção em favor dos apóstolos:
O episódio mais famoso relacionado a Gamaliel é narrado nos Atos dos Apóstolos (Atos 5:34-39). Após a prisão dos apóstolos, alguns membros do Sinédrio quiseram condená-los, mas Gamaliel interveio, aconselhando cautela.
Ele lembrou o fracasso de movimentos religiosos anteriores e sugeriu que se desse tempo para revelar as origens da pregação cristã. Sua declaração de que seria impossível resistir a uma obra de Deus tornou-se uma das passagens mais conhecidas do livro de Atos.
Este episódio não demonstra necessariamente sua adesão ao cristianismo, mas demonstra sua atitude de prudência e respeito pelo juízo histórico.
Mestre de São Paulo segundo a tradição
Os Atos dos Apóstolos recordam que São Paulo foi educado na escola de Gamaliel, descrevendo-se como "educado aos pés de Gamaliel, seguindo rigorosamente a lei de nossos antepassados" (Atos 22:3).
A tradição cristã vê essa relação como uma ligação direta entre o grande apóstolo e seu antigo mestre. Algumas fontes posteriores também argumentam que Gamaliel desempenhou um papel na preparação espiritual de Paulo e em sua abertura ao Evangelho.
Os historiadores, no entanto, distinguem as evidências bíblicas de elaborações posteriores, originadas principalmente da veneração cristã pela figura.
Conversão segundo a tradição cristã
As fontes cristãs antigas não fornecem evidências conclusivas da conversão de Gamaliel. Alguns textos apócrifos e tradições orientais, no entanto, afirmam que ele abraçou secretamente a fé cristã após testemunhar os eventos da Paixão de Cristo e o testemunho dos primeiros discípulos.
De acordo com esses relatos, ele protegeu os cristãos perseguidos e ajudou a nascente comunidade de Jerusalém.
Esses elementos, porém, pertencem à tradição hagiográfica e não são confirmados por fontes históricas contemporâneas.
A descoberta das relíquias, segundo a tradição:
Uma tradição desenvolvida no século V atribui a descoberta dos túmulos de Santo Estêvão, Gamaliel, Nicodemos e Abibo ao sacerdote Luciano de Kefar Gamla.
A história, preservada na chamada "Revelatio Sancti Stephani", narra uma revelação sobrenatural que indicou o local de sepultamento dos mártires e seus companheiros.
A narrativa difundiu-se amplamente por todo o mundo cristão antigo e contribuiu para o surgimento do culto litúrgico de Gamaliel. Os estudiosos, contudo, consideram essa história um testemunho da devoção da época, e não uma fonte histórica verificável.
Culto e memória litúrgica
O culto a São Gamaliel difundiu-se especialmente nas Igrejas Orientais e, posteriormente, também em algumas tradições ocidentais. Sua memória litúrgica é celebrada em 3 de agosto.
A veneração cristã o considera, sobretudo, um modelo de sabedoria e prudência espiritual: um homem que, apesar de pertencer ao meio religioso de onde provinham alguns opositores do cristianismo, reconheceu a necessidade de um julgamento livre e respeitoso diante da obra de Deus.
Autor: Giampietro Cattini


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