A Sagrada Liturgia celebra a 4 de dezembro, juntamente com São João Damasceno, Doutor da Igreja, a festa de Santa Bárbara, padroeira dos artilheiros, mineiros e de todos aqueles que trabalham com pólvora ou talham pedras (¹).
Tal foi a popularidade da Santa, que os fatos de sua vida foram envolvidos nas névoas prateadas da legenda pelos escritores e artistas. O célebre Rafael, por exemplo, imortalizou sua memória em quadro famoso.
Nasceu ela em Nicomédia (atual Turquia), e foi martirizada no ano 245 pelo próprio pai. O nome da virgem mártir consta no Martirológio Romano.
Dióscoro, seu pai, rico nobre da cidade, mandou construir, para uso de sua filha, um quarto de banho com tina de mármore. A primeira vez que Bárbara fez uso dela marcou-a duma cruz com o dedo, ficando o sinal indelevelmente impresso na pedra. Muitos sararam das suas enfermidades beijando essa cruz.
Devido aos seus especiais dotes de beleza e inteligência, o pai - que era pagão e idólatra - encerrou-a numa alta torre para subtrai-la aos olhares dos homens, depositando nela as maiores esperanças em vista de um casamento honroso. Entretanto, permitiu que ela fosse instruída pelo famoso Orígenes. Tomou-se, assim, católica ardorosa, dotada de grande cultura.
O coração da Santa ia-se dilacerando cada vez mais entre amores opostos: o do pai, de um lado, e o de Nosso Senhor Jesus Cristo, de outro. Verificou-se nela a palavra do Divino Mestre: "Não julgueis que vim trazer a paz a terra. Eu vim trazer a divisão entre o filho e o pai, entre a filha e a mãe, e os inimigos do homem serão as pessoas da própria casa" (Mt. 10, 34-36).
A fim de converter seu pai, explicou-lhe as verdades eternas, mas Dióscoro, cego de ódio, tirou sua espada para matá-la. Tendo Bárbara corrido, seu pai a perseguiu com a espada na mão, até acuá-la junto a um rochedo. Quando ia desferir o golpe mortal, o rochedo abriu-se milagrosamente e a virgem conseguiu escapar.
Informado sobre o local onde ela se escondera, seu pai foi buscá-la. Agarrou-a violentamente, jogou-a por terra, espezinhou-a e, tomando-a pelos cabelos, arrastou-a até sua casa. Não conseguindo convencê-la, levou-a ao tribunal do pretor Marciano. Bárbara foi, então, flagelada com tal violência que seu sangue jorrou de todas as partes do corpo. Lançada num calabouço, Nosso Senhor apareceu-lhe, iluminando o local com um clarão sobrenatural, e curou suas chagas.
Mas o iníquo pretor ordenou novos suplícios. Seu corpo foi rasgado com pentes de ferro, e as novas chagas foram queimadas por tochas.
Como ela permanecia inflexível, o ímpio pretor ordenou que os seios da santa fossem amputados (o mesmo tormento que poucos anos depois sofreu Santa Águeda, padroeira da Sicília).
O pretor excogitou, então, o suplício que mais causaria dor à santa: seria despida e os carrascos a perseguiriam com chicotadas através das ruas da cidade. A castíssima donzela pediu a Deus que protegesse sua pureza. Novo milagre: uma luz descida do céu envolveu-a, livrando-a desse modo dos olhares impudicos. Depois disso o pretor mandou que ela fosse decapitada.
Assistindo a todos esses prodígios, seu pai não se deixou comover, mas quis ele mesmo desempenhar o papel de carrasco. Conduziu-a ao alto de uma montanha fora da cidade. Ali, estando a jovem de joelhos em atitude de oração, decepou-lhe a cabeça. Ao mesmo tempo em que sua cabeça caía separada do tronco, via-se a alma da mártir ser arrebatada ao Céu pelos Anjos.
Instantes depois do hediondo crime, num céu sem nuvens, um raio fulminou seu pai e o pretor Marciano. Este terrível castigo parece colocar os raios na dependência de Santa Bárbara, e explica a devoção dos fiéis, que sempre recorrem a ela nas grandes tempestades.
A veneração desta santa do Oriente passou para o Ocidente, sobretudo em Roma, onde, desde o século VII, se multiplicaram as igrejas e oratórios dedicados a seu nome.
Na iconografia católica Santa Bárbara é geralmente apresentada como uma virgem majestosa e altaneira, ostentando uma palma, simbólica de seu martírio, e um cálice como símbolo da proteção que costuma manifestar em relação aos moribundos, e, ao lado, uma espada, instrumento de seu martírio.
O culto a Santa Bárbara
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| Capela dos 14 Mártires, Sta Maria Antiqua |
A mais antiga representação de Santa Bárbara consiste numa pintura encontrada na igreja de Santa Maria Antiqua, no Foro Romano (fundada no século VI).
A partir do século IX os testemunhos relativos ao culto da Santa - igrejas, oratórios, altares, mosteiros etc. - tornam-se cada vez mais numerosos, tanto no Ocidente quanto no Oriente. Posteriormente, a Santa foi incluída entre os 14 Santos Auxiliadores e passou a ser invocada de modo especial para se obter a graça de recepção dos Sacramentos na hora da morte.
Os artilheiros e os mineiros escolheram Santa Bárbara como sua patrona, para que ela os proteja de toda a explosão que pudesse causar a morte, como o raio que fulminou o ímpio pai da Mártir.
Fonte: Catolicismo, dezembro/1994.
(¹) O fato dela não aparecer no calendário litúrgico pós Vaticano não significa que a Igreja a tenha descartado, mas que deu lugar na liturgia a outros santos cujas vidas estejam mais bem documentadas.


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