terça-feira, 8 de outubro de 2024

Pelágia de Antioquia Penitente, Santa século III

Virgem e mártir. 
Preferiu suicidar-se do que 
aceder aos intentos dum 
juiz que a queria violar.
Esta é uma veneração muito antiga, citada mesmo por são João Crisóstomo em um de seus célebres sermões. Sem dúvida, uma página cristã muito interessante, cujos tênues registros estão mesclados pelas tradições orientais dos primeiros séculos. Originária da Antioquia, Turquia, Pelágia viveu no século III. Era uma bailarina belíssima, escandalosa, muito divertida, festiva e pagã. Costumava encantar e seduzir os homens com sua dança, alegria, roupas, jóias e outros ornamentos luxuosos que usava, exclusivamente, com essa finalidade. Com isso, tornou-se uma das figuras mais conhecidas da vida mundana e social daquela cidade. Além, é claro, de ter conseguido uma sólida riqueza e grande influência. Sua fama ultrapassava os limites do movimentado pólo econômico e social, pois muitos nobres ricos vinham apenas para poder estar com ela, que cada vez mais aumentava suas posses e poder. Entretanto, certa vez a sua ostentação chamou a atenção do bispo Nono. Foi durante uma procissão, a que exuberante bailarina assistia, como se fosse um simples espetáculo, numa atitude debochada e espalhafatosa. Ricamente vestida e cercada por alguns pretendentes, ela assistia a tudo certa de que as atenções eram, na verdade, apenas voltadas para ela. O sábio bispo, então, questionou a multidão: se uma mulher era capaz de enfeitar-se daquela forma para chamar a atenção de um simples homem mortal, como deveríamos nós adornar a nossa alma destinada a Deus eterno? Aquela observação tocou o coração da bailarina pagã. Ela foi para casa refletindo sobre as palavras do sermão, lá chorou de arrependimento a noite toda. No dia seguinte, procurou o bispo, que a enviou a uma senhora cristã, para ser preparada para o batismo. Foi assim que, depois, trocou as roupas e adereços de seda e ouro por uma túnica branca para ser batizada. À noite, com autorização dele, Pelágia trocou sua túnica por uma de penitente e abandonou Antioquia. Foi a pé para Jerusalém, viver como eremita, numa gruta, no Monte das Oliveiras, onde Jesus viveu sua agonia da Paixão. Mas quando chegou estava vestida como homem, para evitar que sua beleza perturbasse os outros anacoretas da pequena comunidade. E viveu sendo chamada de Pelágio, de tal modo que todos a esqueceram. Quando morreu, os ermitãos que desconheciam sua origem descobriram que Pelágio era uma mulher. Foi então que reconheceram tratar-se da bailariana da Antioquia, agora uma simples penitente arrependida, que se anulara do mundo, no seguimento do Cristo. O seu culto e sua história foram muito difundidos no mundo cristão oriental. Chegou ao Ocidente através das tradições trazidas pelos peregrinos, que na Terra Santa também visitavam a gruta de santa Pelágia Penitente. A Igreja autorizou esta tradicional devoção popular, mantendo no dia 8 de outubro a sua festa litúrgica. Santa Pelágia Penitente é considerada a padroeira dos cômicos e das atrizes. 
São João Crisóstomo (354-407) narra as adversidades de uma célebre atriz, belíssima tanto quanto dissoluta, que depois da conversão levou vida austera de penitência. Mas não diz seu nome. Assim, um autor desconhecido, que se nomeia Tiago, julgou bom dar-lhe o nome de Pelágia e escrever um longo relato sobre sua história. Pelágia, a penitente (artisticamente conhecida como Margarida de Antioquia) era uma belíssima bailarina que encantava os homens com sua dança e os ornamentos luxuosos que usava, que ostentava sua riqueza e sua vida promíscua. Numa ocasião, o patriarca de Antioquia convocou o Sínodo dos Bispos ante a Basílica de São Juliano, o mártir, onde costumava a pregar o honorável Bispo de Edessa, São Nono. Naquela ocasião Pelágia passou pelo pórtico cavalgando um cavalo branco, rodeada de admiradores, com os braços e ombros descobertos, como se vestiam as cortesãs daquela época. São Nono interrompeu sua pregação, enquanto os outros bispos baixaram discretamente seus olhos, e fixou seu olhar em Pelágia até que desaparecesse de sua vista. Perguntou, em seguida, aos outros bispos: “Não vos parece muito bela esta mulher?” Os bispos, sem saber o que dizer, permaneceram calados. Nono acrescentou: “A mim, me pareceu muito bela, e creio que é uma lição de Deus para nós. Esta mulher faz o impossível para manter sua beleza e aperfeiçoar-se na dança. Quanto a nós, não realizamos por nossas dioceses e por nossas almas, sequer a metade do que ela faz”. Naquela mesma noite São Nono se viu, em sonho, celebrando a Liturgia, enquanto um grande e estranho pássaro, sujo e agressivo, tentava impedi-lo. Quando o diácono despediu os catecúmenos, a criatura partiu com eles, mas pouco tempo depois retornou e São Nono conseguiu então apanhá-lo e mergulhá-lo na fonte do átrio. A ave saiu da água branca como a neve, desaparecendo entre as nuvens. No dia seguinte, um domingo, todos os bispos que assistiram a Divina Liturgia celebrada por São Nono, pediram a ele que pregasse. Pelágia, que sequer era catecúmena, sentiu-se impelida a ir à igreja naquele dia e ouvindo a pregação sentiu suas palavras caírem fundo em seu coração. Tempos depois, escreveu uma carta a São Nono rogando-lhe que permitisse falar com ele. São Nono concordou em lhe conceder uma audiência na condição de que isto acontecesse na presença de outros bispos. Ao aproximar-se de São Nono, Pelágia caiu de joelhos diante dele e chorando muito disse: “Eu sou Pelágia, um oceano de iniquidade repleto das ondas dos pecados. Sou o abismo da perdição, a voragem e a armadilha das almas. Enganei a muitos, e agora tenho muito medo de tudo”.(*) Então pediu o batismo e suplicou que ele se interpusesse entre ela e seus pecados para que o espírito do mal não tivesse mais domínio sobre sua alma. São Nono batizou-a, confirmando-a na fé e lhe dando a comunhão. Oito dias depois de seu batismo, Pelágia, que já havia renunciado a todos os seus bens em favor dos pobres, despojou-se da túnica branca dos batizados e à noite, vestida como um homem, abandonou Antioquia e seguiu solitária, a pé, para Jerusalém onde se instalou numa gruta no Monte das Oliveiras. Logo ficou conhecida como “Pelágio, o monge sem barba”. Três ou quatro anos depois, Jacob, um diácono de São Nono, foi visitá-la acreditando tratar-se de um monge. Durante sua permanência em Jerusalém Pelágia entregou sua alma a Deus. O diácono voltou à sua cela e encontrando-a morta foi anunciar o ocorrido ao bispo que congregou o clero para celebrar as exéquias de tão santo varão. Ao prepará-la para o sepultamento descobriram que se tratava de uma mulher. Muito admirados, deram graças a Deus e sepultaram o santo corpo com todas as honras. Santa Pelágia faleceu por volta do ano do Senhor de 290. Etimologia: Pelágia, do latim Pelagius: “do mar, marinho, marítimo, marinheiro”. Do grego pélagos: “mar, pélago”. 
(*) Legenda Áurea de Tiago de Voragine. 

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