São Zeno, pai, e seus dois filhos, Concórdio e Teodoro, foram alvos do último imperador romano, declaradamente pagão, Juliano o Apóstata, que quis interromper seu caminho para o cristianismo. O martírio deles, entre história e lenda, foi narrado por uma antiga passio latina.
(†)Nicomédia, Bitínia, atual Turquia, por volta de 2 de setembro de 362
O "Martirológio Romano" situa a memória dos santos Zenão e seus filhos Concórdio e Teodoro, mártires de Nicomédia, em 2 de setembro. Essa informação, por sua vez, foi extraída de um antigo breviário capuano que continha uma lendária "paixão" em latim. Eles foram vítimas da perseguição de Juliano, o Apóstata. Pouco mais se sabe; o mesmo grupo, juntamente com outros mártires ou com nomes quase idênticos, como Cosconius e Concordius, é mencionado no mesmo dia, 2 de setembro, tanto no "Martirológio Jerônimo" do século IV quanto no "Martirológio Sírio", gerando alguma confusão e opiniões divergentes entre os estudiosos.
Etimologia:( Do grego Zenon, derivado de Zeus, que significa 'aquele que vive pela vontade de Júpiter' ou 'divino'.
Emblema: Palma do Martírio
Martirológio Romano: Em Nicomédia, na Bitínia, atual Turquia, São Zenão, mártir.
A reconstrução biográfica de Zenão e seus filhos Concórdio e Teodoro enfrenta uma documentação histórica particularmente limitada e problemática. Ao contrário de muitos outros mártires dos primeiros séculos cristãos, não possuímos registros de julgamento, testemunhos contemporâneos ou relatos confiáveis de seu martírio. As únicas informações que temos provêm de fontes tardias, predominantemente litúrgicas e hagiográficas.
O Martirológio Romano, datado de 2 de setembro, registra sua memória com uma fórmula básica: "Em Nicomédia, na Bitínia, na atual Turquia, São Zenão, mártir". No entanto, a edição atual do Martirológio menciona apenas Zenão, omitindo seus filhos, que apareceram em edições anteriores. Essa simplificação provavelmente reflete uma maior cautela crítica por parte dos editores modernos diante da escassez de dados históricos confiáveis.
A fonte mais antiga que os menciona é o Martirológio de Jerônimo, o catálogo mais antigo de mártires cristãos da Igreja Latina que sobreviveu até os nossos dias, juntamente com o Martirológio Siríaco do século IV. Contudo, mesmo nessas fontes antigas existem confusões e variantes nos nomes: alguns manuscritos listam Cosconius e Concordius como filhos de Zeno, em vez de Concordius e Theodore, causando consideráveis problemas para os estudiosos da hagiografia.
O contexto histórico de Nicomédia
Para compreender o possível contexto do martírio de Zeno e seus filhos, é necessário reconstruir a situação de Nicomédia nos primeiros séculos da era cristã. Nicomédia, correspondente à atual İzmit, na Turquia, não era uma cidade qualquer do Império Romano. Fundada em 264 a.C. pelo rei Nicomedes I da Bitínia, a cidade assumiu crucial importância estratégica quando, em 286 d.C., tornou-se a capital oriental e mais importante do Império Romano sob Diocleciano.
A decisão de Diocleciano de estabelecer sua residência imperial em Nicomédia transformou radicalmente a cidade, que foi equipada com templos, palácios e infraestrutura dignos de uma capital. Mas Nicomédia também se tornou palco da mais violenta perseguição contra cristãos na história do império. Em 23 de fevereiro de 303, começou a grande perseguição de Diocleciano na própria Nicomédia, com a destruição da igreja cristã local. Segundo fontes antigas, a cidade já era metade cristã, e o próprio palácio imperial abrigava numerosos seguidores de Cristo.
A perseguição de Diocleciano, que durou até 311, foi sistemática e cruel: milhares de cristãos foram mortos em Nicomédia e por toda a Bitínia. As fontes falam de vinte mil mártires que pereceram em um único dia, queimados vivos em uma igreja enquanto celebravam o Natal, embora os estudiosos modernos considerem esse número provavelmente exagerado. De qualquer forma,Nicomédia faz jus ao apelido de "cidade esquecida dos mártires cristãos".
É nesse contexto de violência e testemunho heroico que o martírio de Zenão e seus filhos é tradicionalmente situado. Se a data de 362 estiver correta, eles teriam sido vítimas do imperador Juliano, o Apóstata, que reinou de 361 a 363 e tentou restaurar o paganismo. No entanto, essa atribuição apresenta sérios problemas históricos. Juliano, apesar de ser hostil ao cristianismo e ter renunciado publicamente à fé cristã que recebera na juventude, era politicamente astuto demais para criar mártires. Ele sabia muito bem que perseguições violentas apenas fortaleceriam a fé cristã, fornecendo novos heróis e testemunhas para a Igreja. Por essa razão, preferiu uma estratégia mais sutil de marginalização e pressão econômica sobre os cristãos, evitando execuções em massa.
Essa consideração levou os historiadores modernos a duvidarem fortemente da data tradicional de 362. Se Zenão e seus filhos foram de fato martirizados em Nicomédia, é muito mais provável que isso tenha ocorrido durante a perseguição de Diocleciano, entre 303 e 304, quando a violência contra os cristãos atingiu níveis sem precedentes na capital oriental do império.
Martírio: entre história e tradição.
A lendária paixão preservada no antigo breviário de Cápua, embora desprovida de valor documental histórico, oferece-nos elementos úteis para a compreensão da antiga devoção a esses mártires. Segundo a tradição hagiográfica, Zenão era um soldado romano estacionado em Nicomédia que se converteu ao cristianismo. Durante as perseguições, ele confessou publicamente sua fé junto com seus dois filhos, Concórdio e Teodoro, sofrendo o martírio ao lado deles.
O detalhe do martírio familiar — um pai e seus filhos morrendo juntos pela fé — não é exclusivo da hagiografia antiga, mas possui, no entanto, um significado teológico e espiritual particular. Testemunha a transmissão intergeracional da fé cristã nas primeiras famílias e a capacidade da mensagem evangélica de criar laços ainda mais fortes do que os de sangue, como Jesus afirmou nos Evangelhos.
Na mentalidade antiga, o martírio de um pai ao lado de seus filhos tinha um profundo valor simbólico: representava a vitória da fé sobre os temores naturais pela própria segurança e pela segurança dos entes queridos, a capacidade de colocar o testemunho de Cristo acima de tudo. Além disso, sugere que Zenão não se limitou a viver sua fé em privado, mas a transmitiu ativamente aos seus filhos, educando-os no cristianismo em um contexto social hostil e perigoso.
Os atributos iconográficos tradicionais desses mártires são essenciais: a palma, um símbolo universal do martírio na arte cristã antiga. No entanto, carecemos de descrições detalhadas das modalidades específicas de sua tortura, um fator que atesta ainda mais a escassez de fontes históricas confiáveis.
A questão dos nomes e da confusão hagiográfica.
Um aspecto particularmente problemático da tradição referente a Zenão e seus filhos é a confusão de nomes já encontrada em fontes antigas. O Martirológio Jerônimo e o Martirológio Siríaco, embora mencionem esse grupo de mártires nicomedianos em 2 de setembro, apresentam variações significativas: alguns manuscritos se referem a Cosconius e Concordius como filhos de Zenão, outros a Concordius e Teodoro.
Essa oscilação onomástica gerou opiniões divergentes entre os estudiosos da hagiografia. Algumas hipóteses apresentadas por estudiosos sugerem que pode ter havido erros de cópia em manuscritos antigos, onde nomes semelhantes como Cosconius e Concordius podem ter sido confundidos. Outros acreditam que a confusão decorre da comemoração, no mesmo dia, de diferentes grupos de mártires, posteriormente fundidos pela tradição em um único memorial.
É também possível que existissem diferentes tradições locais quanto à composição desse grupo familiar de mártires, posteriormente incorporadas aos martirológios com variações irreconciliáveis. O que é certo é que essa instabilidade textual constitui um elemento adicional de cautela na abordagem histórica dessas figuras, confirmando a natureza predominantemente devocional, e não documental, de nossas fontes.
O Culto e sua Difusão
O culto a Zenão e seus filhos, apesar da escassez de documentos históricos, difundiu-se por toda a antiguidade cristã, como evidenciado pelas diversas menções em antigos martirológios. A presença de seu memorial em um antigo breviário de Cápua sugere que o culto a esses mártires nicomedianos também havia chegado ao sul da Itália, provavelmente por meio de contatos comerciais ou movimentos de clérigos e fiéis entre o Oriente e o Ocidente cristãos.
Cápua, um importante centro na Campânia romana, possuía suas próprias tradições martirológicas e um calendário litúrgico desenvolvido. A inclusão de Zenão e seus filhos no breviário de Capuano indica que sua memória era considerada significativa pela comunidade cristã local. No entanto, não temos registros de igrejas dedicadas a esses santos ou de relíquias preservadas no Ocidente, evidências que poderiam ter confirmado uma devoção ampla e profundamente enraizada.
O antigo Martirológio Romano, anterior à reforma pós-conciliar, comemorava os três santos em 2 de setembro com a fórmula: "Em Nicomédia, os santos mártires Zenão, Concórdio e Teodoro, seus filhos". Esta menção explícita dos filhos, juntamente com o pai, atesta que a tradição hagiográfica romana aceitava e incorporava a narrativa do martírio familiar.
O atual Martirológio Romano, reformado após o Concílio Vaticano II com maior rigor histórico, menciona apenas Zenão, omitindo seus filhos. Essa simplificação provavelmente reflete a cautela dos editores diante da escassez e incerteza das fontes históricas. O Martirológio limita-se a uma menção básica: "Em Nicomédia, na Bitínia, na atual Turquia, São Zenão, mártir", sem maiores detalhes biográficos ou hagiográficos.
Nas Igrejas Orientais, a comemoração desses mártires é menos documentada, apesar de sua origem nicomeda. Essa descoberta interessante pode sugerir que o culto a Zenão e seus filhos se desenvolveu principalmente no Ocidente, talvez por meio de canais específicos de transmissão hagiográfica. A ausência de uma tradição oriental consolidada lança ainda mais luz sobre a natureza e a antiguidade desse culto.
Nicomédia: Centro do Cristianismo Primitivo.
A cidade de Nicomédia, local do martírio de Zenão e seus filhos, merece um estudo mais aprofundado para compreendermos o contexto em que o cristianismo primitivo se desenvolveu na Bitínia. Já no século I, Plínio, o Jovem, governador da Bitínia-Ponto, escreveu ao imperador Trajano solicitando instruções sobre como tratar os cristãos, atestando a ampla presença da nova fé na região. Plínio menciona numerosos cristãos que foram denunciados e executados, fornecendo um dos primeiros testemunhos extrabíblicos do cristianismo.
Ao longo dos séculos seguintes, a comunidade cristã de Nicomédia cresceu de forma constante, a ponto de, na época de Diocleciano, metade da cidade já ser cristã. A presença cristã estava tão arraigada que o próprio palácio imperial abrigava numerosos seguidores de Cristo, provavelmente incluindo membros da administração e da corte. A disseminação do cristianismo em uma cidade que outrora fora capital imperial e centro do poder pagão torna o testemunho de mártires como Zenão e seus filhos ainda mais heroico.
Nicomédia também foi uma importante sede episcopal nos primeiros séculos. O bispo Antimo foi martirizado durante a perseguição de Diocleciano, e a cidade honrou sua memória com particular devoção. O Papa Honório I converteu a Cúria do Senado Romano em Roma em uma igreja em honra a Santo Adriano, mártir de Nicomédia, demonstrando como o culto aos mártires nicomedes também influenciou o Ocidente.
Pesquisas arqueológicas modernas identificaram os restos de pelo menos dez igrejas antigas em İzmit (antiga Nicomédia), confirmando a importância do cristianismo na cidade. Apesar de séculos de domínio muçulmano e da destruição de muitos edifícios religiosos, vestígios do passado cristão de Nicomédia ainda emergem de escavações e do estudo de fontes históricas.
Curiosidade:
A confusão em torno dos nomes dos filhos de Zenão (Concórdio e Teodoro, ou Coscônio e Concórdio) criou um verdadeiro mistério hagiográfico ao longo dos séculos, que os estudiosos ainda não conseguiram resolver definitivamente. Alguns manuscritos do Martirológio de Jerônimo apresentam uma versão, outros outra, e não há consenso entre os especialistas sobre qual leitura é a original.
Outra curiosidade diz respeito à datação do martírio: embora a tradição popular e alguns textos devocionais continuem a situar Zenão e seus filhos na época de Juliano, o Apóstata (361-363), os historiadores modernos sabem que esse imperador, apesar de ser hostil ao cristianismo, evitou cuidadosamente criar mártires. Juliano era, de fato, um intelectual refinado, versado na história da Igreja e ciente de que as perseguições violentas apenas fortaleceriam a fé cristã, fornecendo novos heróis e testemunhas. Por essa razão, ele preferiu uma estratégia de marginalização cultural e econômica, tornando anacrônica a data tradicional de 362.
Autor: Giampietro Cattini

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